A morte, segundo a minha avô materna Santina, é tão dolorosa
quanto o parto. Por isso julgo que o finamento de Maurício foi terrivelmente
aflitivo, embora silencioso. Silêncio que
é, deveras, a minha condenação; e que me persegue, curva-me o torso, pesa-me a
cabeça. Ainda hoje, imagino Maurício aspirando toda a água do rio Panamá; a
água se entranhando em seu pequeno e saudável corpo, já vermelho devido ao sol.
Imagino o grito reprimido, o punho fechado e o riso, sempre perturbador, do
fluido, do sol que pairava indiferente. Imagino a água servindo de alimento ao
estômago para em seguida percorrer com ferocidade em direção aos pulmões; o
corpo magro já avolumado, irreconhecível, não mais podendo ser chamado
Maurício. E a calmaria consumia o ambiente.
As árvores ainda estavam verdes e os peixes com vida. Não, não matei o
meu irmão mais novo. Deixei-o morrer.
Quando mais moço acreditava que o rio era capaz de limpar o
corpo – os maus pensamentos, a vida desregrada e outros grandes e pequenos
pecados diários. Banhava-me no Panamá à exaustão—informado que o rio pouco
cheiroso e de cor verde-escura, purificava-- e recordava do batismo de Jesus no
Jordão, pois eu também padecia dos meus pecados. Mas ao sair do rio, porém, a natureza
não ofertava maior brilho, tampouco uma voz que descia dos céus. “Há golpes na
vida, tão fortes... eu não sei! Golpes como o ódio de Deus... São as quedas
fundas dos cristos da alma... E o homem... pobre...pobre! Volta os olhos, como
quando por sobre o ombro nos chama uma palmada; volta os olhos loucos, todo o
vivido estagna-se, como charco de culpa, no olhar. Há golpes na vida, tão fortes”, versava César Vallejo.
Ontem, ao entardecer, sonhei com Maurício. Naquele sol a pino
do meio-dia ele nadava como um golfinho, afobado, extravagante, exibicionista.
Um menino infantil, que ainda fiava em deuses; e eu
cauteloso, preciso, o rio exaltando a minha habilidade. E Maurício, na mais
tenra idade, era capaz de saltar do mais alto penhasco, travar luta com fogo e
crendo, na mais tenra idade, sair ileso.
Dói-me hoje este brilho ostensivo do sol. Por que não mais
frio e lúgubre? Por que nenhuma demonstração de piedade? Não, a vida não me dói
aos poucos, mas veio como rio revolto, demasiada para a frágil estrutura.
Minha nossa que texto lindo. Pesado, mais ao mesmo tempo reflexivo. Parabéns 👏👏
ResponderExcluirObrigado, Catarina.
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