sábado, 3 de março de 2018

Corpo Mutilado




Estava deitado, um pouco depois do almoço, no alpendre da casa de tia Avelina. Uma boa sesta pretendia naquele dia atípico. O céu bonito, recordo, o sol escondido, nuvens cinzas velavam o céu. E os pássaros, certamente, em refúgio. Tia Avelina apanhando as roupas dependuradas sobre cordas no quintal. Com um pé eu impulsionava a rede, gosto do movimento que faz. A cama é por demais estática, lembro ter dito à Tia, que engulhava só de observar. O fato é que a rede parou de pendular, assim como desgosto, e não tinha modo de movimentá-la. Escapuliu, evaporou a perna que pendia da rede; depois o braço esquerdo que imitava travesseiro sob a cabeça; e por último a metade da face e do torso. E o dia, aliás, ficava cada vez mais belo. Digno de Manoel de Barros. 

Vontade de fumar. Pedi à Tia que acendesse o cigarro que eu trazia no bolso esquerdo da camisa, já folgada por falta de corpo. E depois que metesse no que antes eu chamava de boca. A Tia ficou biruta ao me ver, o que já era de se esperar. Mas eu estava bem. Já sentia tudo pela metade, logo, a angústia não chegava e se chegasse, chegaria pela metade. Na perspectiva de um citadino, pensei, surgia no interior de Lavras um novo filósofo. Fiquei encantado com a possibilidade de aparecer na tevê. Até a minha gata, que se chamava Gata, olhou-me assustada com aqueles olhos de serpente, de onça, de gato. Esbocei algo que chamei de sorriso. 

Ali, deitado, pensei que precisava aprender a escrever com a mão direita para dar continuidade ao serviço no cartório. Bem que meu pai alertava: “Homem direito não é esquerdo.” E pelejava para que eu usasse a bendita mão destra. Agora, e só agora me parece que o conselho é sábio. 

A Tia trouxe um tipo de pau para que fizesse dele bengala. Não sei. Não creio útil e, ademais, não sei se gostaria de preencher o que perdi. A rede estática já surge como objeto agradável.

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