Estava deitado, um pouco depois do almoço, no alpendre da
casa de tia Avelina. Uma boa sesta pretendia naquele dia atípico. O céu bonito,
recordo, o sol escondido, nuvens cinzas velavam o céu. E os pássaros,
certamente, em refúgio. Tia Avelina apanhando as roupas dependuradas sobre
cordas no quintal. Com um pé eu impulsionava a rede, gosto do movimento que faz. A cama é por demais estática,
lembro ter dito à Tia, que engulhava só de observar. O fato é que a rede parou
de pendular, assim como desgosto, e não tinha modo de movimentá-la. Escapuliu,
evaporou a perna que pendia da rede; depois o braço esquerdo que imitava
travesseiro sob a cabeça; e por último a metade da face e do torso. E o dia,
aliás, ficava cada vez mais belo. Digno de Manoel de Barros.
Vontade de fumar. Pedi à Tia que acendesse o cigarro que eu
trazia no bolso esquerdo da camisa, já folgada por falta de corpo. E depois que
metesse no que antes eu chamava de boca. A Tia ficou biruta ao me ver, o que já
era de se esperar. Mas eu estava bem. Já sentia tudo pela metade, logo, a
angústia não chegava e se chegasse, chegaria pela metade. Na perspectiva de um
citadino, pensei, surgia no interior de Lavras um novo filósofo. Fiquei
encantado com a possibilidade de aparecer na tevê. Até a minha gata, que se
chamava Gata, olhou-me assustada com aqueles olhos de serpente, de onça, de
gato. Esbocei algo que chamei de sorriso.
Ali, deitado, pensei que precisava aprender a escrever com a
mão direita para dar continuidade ao serviço no cartório. Bem que meu pai
alertava: “Homem direito não é esquerdo.” E pelejava para que eu usasse a
bendita mão destra. Agora, e só agora me parece que o conselho é sábio.
A Tia trouxe um tipo de pau para que fizesse dele bengala.
Não sei. Não creio útil e, ademais, não sei se gostaria de preencher o que
perdi. A rede estática já surge como objeto agradável.
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