quarta-feira, 3 de junho de 2026

Repousar Seguro

 

 

Mulher sonhando em um barco, Robert Noble, 1900




Quando aprendemos a dormir? O fechar dos olhos não parece ser garantidor de que pesado sono caia sobre nós; tampouco sobrevém o sonho se acrescentamos ao cerrar dos olhos o debruçar-se sobre a relva. É necessário o dulçor que se segue ao fastidioso dia?

Subir um degrau é já um conhecimento (propriocepção), deter-se nele, outra sabedoria: afinal, o correr sem descanso é próprio dos rios -- das águas dos rios. Há técnica, inclusive, para abrir e fechar um guarda-chuva; e regras de onde pô-lo após a tempestade.

Será o sonífero a lição administrada (em pílula) para os que não foram educados ainda imberbes? 

 

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Não há remédio inofensivo

 

 

Davi, de Michelangelo

 


 

Há dias em que sou mais semelhante a um deus do que a um homem: os temas mundanos me fazem suspirar -- não como o suspiro da donzela pelo cavaleiro plebeu, mas o tipo de suspiro de quem entedia-se ou definha.

O vento sopra, nesses dias, e fende montes e castelos; não sou, porém, o vento. O terremoto trinca a terra e a todos faz estrangeiros: não sou, contudo, o terremoto. As palhas parecem loiras de longos cabelos, consumidas que são pelo fogo; não sou eu o fogo. Sou o cício que segue as catástrofes, o rocío, o orvalho. Sou Davi, vestido de sua desnudez, imóvel e imortalizado por Michelangelo.

Nos dias de minha majestade, não raro esqueço se traguei -- ou não -- as quatro pílulas prescritas pelo médico. Se inclino-me a não tomá-las, por precaução, morro um bocado em um dia; se, do contrário, arrisco-me a ingerir uma dose segunda, desfaleço.

Há filósofo alemão que se debruce sobre questão ontológica como esta? 

 


 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Flâner Doméstico ou Valorize o Pão

 

Yuri Zharov, 1985


Sobre a mesa de jantar, há o pão bem dormido e migalhas dele caídas, mas não requisitadas pelo cão, o qual não está a olhar-me mendicante. Presente também o café coado não requentado e um lápis bem apontado, algumas folhas... e o leite derramado -- em pó e integral, como todas as coisas desde Adão.

O pensamento da cabeça é o único que não está onde deveria, a saber, na cabeça; igualmente pensam o paladar (a sentir o açúcar do doce), e a epiderme e os músculos; estes, sim, sem me abandonar, falam-me do quente do café, do contrair e relaxar do maxilar leonino que devora matéria distinta, sem dourar a pílula, não hesitando pelas guerras do além-mar.

Da cabeça, o pensamento vadio inquieta-me a respeito do motivo de empunharem celulares e não punhais e adagas.  

 

 

Mark Taylor, 2023


 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Tabela Periódica

 





Estar assente sobre o silêncio, semelhante ao monte Sinai, a Hotei ou a um gato: com o silêncio entreter-se e repousar. Ter o mundo reduzido à própria massa corporal.

Tombar acima do chão, conhecedor mudo da gravidade, da temperatura e das estações -- porque os pelos e as crostas e as folhas caem, a despeito do nosso querer.

E ser tão natural quanto o café, a coca, o crack, a pílula do dia seguinte, o sol e o micróbio e a água e a língua da cobra coral.

 

 

 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"Dias Perfeitos", um filme de Wim Wenders

 

 

Imagem retirada da Internet

 

A vida está no raso, no supérfluo: na escovação dos dentes, no aparar dos pelos, no banho do corpo, no dormir (quando o cansaço é quase um prazer),que comunica que não resistimos à morte, do mesmo modo que não resistimos ao sonho; no tirar e voltar a calçar as meias.

Se há pulsão de vida, ela encontra-se nas atividades diárias de organização e ordem, as quais permitem a subsistência e o desenvolvimento humano. É pôr os bonecos deitados ou sentados, se já não estamos a fazer com que corram, e briguem, e beijem-se, e pilotem o automóvel. A pulsão de morte, ao contrário, são os escombros de guerra.

Lembremo-nos dos deveres das tribas de Israel no deserto, em que Deus encarga aos coatitas a atividade de cobrir a arca do Testemunho, de dispor sobre a mesa da proposição os recipientes do incenso e as taças; à tribo de Merari, a ordem de que levem as tábuas do tabernáculo, os vasos, as colunas, as bases... Isso diz a mim que todo movimento é sagrado, sagrado também o modo e as disposições, ainda que apareçam simplórias.

Hirayama prenha de sentido, ou de sentido tudo já está composto?, e Hirayama somente desvela com olhar que sorri e o sorriso que vê? Como limpador de banhos públicos, Hirayama esmerila o retrete tal qual o artesão se debruça sobre o cristal; os dois objetos existem, e deveras aquele é fundamentalmente mais precioso à vida do que este. Nos dias da nossa personagem, não se enganem, há também frio e chuva e sombras, e nesses dias, menos comuns, nutrimo-nos com café duplo.

***

Um homem sacava braçalmente água de um poço, a fim de irrigar o seu campo. Tzu- Kung, que o observava, como se o suor do homem fosse uma extravagância, quase um capricho, narrou-lhe acerca dos avanços tecnológicos que proporcionariam agilidade em trazer à superfície a água do poço.

O homem, por sua vez, retrucou que a máquina maquiniza o homem, traga-o, e o coração do homem passaria a precisar de lubrificantes e outras graxas.