quarta-feira, 6 de maio de 2026

Não há remédio inofensivo

 

 

Davi, de Michelangelo

 


 

Há dias em que sou mais semelhante a um deus do que a um homem: os temas mundanos me fazem suspirar -- não como o suspiro da donzela pelo cavaleiro plebeu, mas o tipo de suspiro de quem entedia-se ou definha.

O vento sopra, nesses dias, e fende montes e castelos; não sou, porém, o vento. O terremoto trinca a terra e a todos faz estrangeiros: não sou, contudo, o terremoto. As palhas parecem loiras de longos cabelos, consumidas que são pelo fogo; não sou eu o fogo. Sou o cício que segue as catástrofes, o rocío, o orvalho. Sou Davi, vestido de sua desnudez, imóvel e imortalizado por Michelangelo.

Nos dias de minha majestade, não raro esqueço se traguei -- ou não -- as quatro pílulas prescritas pelo médico. Se inclino-me a não tomá-las, por precaução, morro um bocado em um dia; se, do contrário, arrisco-me a ingerir uma dose segunda, desfaleço.

Há filósofo alemão que se debruce sobre questão ontológica como esta? 

 


 

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