A barata, preguiçosamente, caminhava sobre o tornozelo do homem; coçava-se, ou algo semelhante ao coçar do corpo. Embrenhava-se nos pelos louros e se julgava, por vezes, perdida. Metia-se no umbigo, cheirava-o e desgostava. Faltava, talvez, a profundidade dos esgotos. Prosseguia. Caia de barriga para cima sobre a barriga do homem. Defecou sobre o peito, vasculhou o rosto e penetrou na boca aberta de desleixo do homem que dormia. Sonhei, numa noite, que este era o sonho da barata.
A formiga, por sua vez, sonha com o furto. Invadindo a casa sem ser apercebida. Trilhar um caminho limpo de inseticida
e cochilar no pote de açúcar.
O sonho da gota d'água é combater o tombo.
O sonho da terra árida, terra sertaneja -- a de Pernambuco, Ceará e Paraíba -- é pertencer ao mar. A sombrinha, entretanto,
sonha com o verão de céu claro, mas sem mormaço. Sonha em permanecer ociosa. Chamam, entre elas, ócio criativo.
Invejam, e por isso sonham, as tendas de verão na praia. Ou barracas de camping. Imóveis.
As pedras sonham com Sísifo. Desejam ser úteis, participar de um plano divino -- qualquer.
No verão as árvores não sonham, mas depois do excesso (verão) que sempre vem acompanhado da falta de vitalidade (outono),
elas sonham com a primavera.
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