Eu e Martín Varela, historiador argentino radicado no México,
estávamos conversando a respeito de uma tribo americana que retribuía com outro
bem – geralmente com pedra ou faca ou oração – o que coletava da natureza. E
de Thomas Carlyle e o escândalo da cruz. Pouco mais tarde ele iria ministrar
uma palestra – sobre uma revolução fracassada – para universitários.
Esperávamos o horário do encontro em uma praça próxima. Nada
disse a ele, mas gostaria de ter dito, do total desprezo que tenho por
universitários e palestrantes. Desse rito fantasmagórico e tão semelhante ao
rito religioso, ao padre e ao fiel. Percebo, agora, que num diálogo há mais
coisas não ditas do que ditas. Mais segredo do que revelação.
Enquanto Martín mastiga uma mistura de empada de frango e
café ou bolo e suco de goiaba, vejo um jovem que detém o passo, a poucos metros
de nós, para acender um cigarro. Vou descrevê-lo mas a memória, como se sabe,
tem mais de ficção do que de realidade. Cabelos longos e lisos, porém não
consciente do que este descuido significa; alto e magro, vestindo preto e com a
arcada dentária em colapso. Acendeu um cigarro, tragou duas ou três vezes e em
seguida, com a sola da sandália, apagou e meteu no bolso da bermuda.
Martín estava concentrado na pequena refeição. Acreditava
e confidenciou-me que os “canalhas” não ofereceriam nada além de água na
palestra. O jovem se aproximou e pediu um di-di-di-nhei-nhei-ro
pra-pra-pra-com-com-com-prar-co-co-co-mi-mi-mi-da-da-da. Martín, por sua vez,
disse: Sai daqui va-va-va-ga-ga-ga-bundo. Uma pilhéria dele. Uma universidade que
se preze não convida um palestrante gago.
Sem se abater por isso, o jovem tirou moedas do bolso,
contou, e saiu em direção à universidade.
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