sábado, 18 de agosto de 2018

Pequenos prazeres



Eu e Martín Varela, historiador argentino radicado no México, estávamos conversando a respeito de uma tribo americana que retribuía com outro bem – geralmente com pedra ou faca ou oração – o que coletava da natureza. E de Thomas Carlyle e o escândalo da cruz. Pouco mais tarde ele iria ministrar uma palestra – sobre uma revolução fracassada – para universitários. 

Esperávamos o horário do encontro em uma praça próxima. Nada disse a ele, mas gostaria de ter dito, do total desprezo que tenho por universitários e palestrantes. Desse rito fantasmagórico e tão semelhante ao rito religioso, ao padre e ao fiel. Percebo, agora, que num diálogo há mais coisas não ditas do que ditas. Mais segredo do que revelação. 

Enquanto Martín mastiga uma mistura de empada de frango e café ou bolo e suco de goiaba, vejo um jovem que detém o passo, a poucos metros de nós, para acender um cigarro. Vou descrevê-lo mas a memória, como se sabe, tem mais de ficção do que de realidade. Cabelos longos e lisos, porém não consciente do que este descuido significa; alto e magro, vestindo preto e com a arcada dentária em colapso. Acendeu um cigarro, tragou duas ou três vezes e em seguida, com a sola da sandália, apagou e meteu no bolso da bermuda. 

Martín estava concentrado na pequena refeição. Acreditava e confidenciou-me que os “canalhas” não ofereceriam nada além de água na palestra. O jovem se aproximou e pediu um di-di-di-nhei-nhei-ro pra-pra-pra-com-com-com-prar-co-co-co-mi-mi-mi-da-da-da. Martín, por sua vez, disse: Sai daqui va-va-va-ga-ga-ga-bundo. Uma pilhéria dele. Uma universidade que se preze não convida um palestrante gago. 

Sem se abater por isso, o jovem tirou moedas do bolso, contou, e saiu em direção à universidade.

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