domingo, 9 de dezembro de 2018

Narciso e os laços



A minha mãe me detesta, dizia-me Luís Carlos Laiseca, professor de literatura da Universidade de Buenos Aires. A figura da mãe, para Laiseca, representa a coletividade. Logo se a mãe ama e respeita o rebento, um bom homem se julgará e também amado por Deus e os seus filhos. Se a mãe o despreza, será quando muito e se não covarde, um Caim, um assassino.  Laiseca, naturalmente, é um covarde. Na ação, eu diria; não no discurso. Não fosse assim, pusilânime, eu não estaria em sua casa à espera do seu único filho, Martín, para a ceia de natal.

Eu o conheci em Fortaleza, 1999. Esteve proferindo palestra sobre Albert Camus.  Sombrio, taciturno.  Nasceu na Argentina mas os seus pais são alemães. Fala em espanhol com desagrado; gostaria, isso sim, de lecionar em alemão. Os alemães têm “Kultur”, os franceses têm “Kultur”; os argentinos não têm “Kultur”... nem os brasileiros, sempre ressalta.

Antes da chegada de Martín, Laiseca comentava a relação atribulada que tinha com o unigênito. Acreditava, pela liberdade que ofereceu ao filho desde moço, que este optou por não respeitar-lhe. Não trabalha, não estuda, sente repugnância da presença de qualquer indivíduo, enfim, um narciso, dizia o pai.  Martín vence-me durante o dia; venço durante a noite, nos momentos de fome e desespero.  Pena que, por esses dias, faça mais sol do que sombra. 

Martín estava inflexível, recostado no espaldar da cadeira da mesa de jantar. Não falava. Somente comia. Eu e Laiseca discutíamos sobre Adão, a maçã e a árvore do conhecimento. Certamente -- dizia eu -- não por causa da fome que Adão comeu a maçã. Mas por tédio. Sim, o tédio – dizia o professor –, o tempo em seu estado puro, onipotente. E, com ar de escárnio, olhava para o filho de esguelha.

E como se o filho ali não estivesse... Martín, por exemplo – confessava o pai – só dialoga com o espelho.  E não, não é uma variação do mito de Narciso. Bebe frente ao espelho, fuma frente ao espelho. Beija-o até.  Certa feita, flagrei um diálogo seu-- com o espelho -- sobre Franz Kafka. O espelho, é isso o que me admira, conhece bem sobre literatura. Martín, ao contrário, é um completo ignorante. Bem, talvez não seja tão absurdo. Martín tem 26 anos. E o espelho é mais antigo que Jesus Cristo.

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