A minha mãe me detesta, dizia-me Luís Carlos Laiseca,
professor de literatura da Universidade de Buenos Aires. A figura da mãe, para
Laiseca, representa a coletividade. Logo se a mãe ama e respeita o rebento, um bom
homem se julgará e também amado por Deus e os seus filhos. Se a mãe o despreza,
será quando muito e se não covarde, um Caim, um assassino. Laiseca, naturalmente, é um covarde. Na ação,
eu diria; não no discurso. Não fosse assim, pusilânime, eu não estaria em sua
casa à espera do seu único filho, Martín, para a ceia de natal.
Eu o conheci em Fortaleza, 1999. Esteve proferindo palestra
sobre Albert Camus. Sombrio, taciturno. Nasceu na Argentina mas os seus pais são
alemães. Fala em espanhol com desagrado; gostaria, isso sim, de lecionar em
alemão. Os alemães têm “Kultur”, os franceses têm “Kultur”; os argentinos não
têm “Kultur”... nem os brasileiros, sempre ressalta.
Antes da chegada de Martín, Laiseca comentava a relação
atribulada que tinha com o unigênito. Acreditava, pela liberdade que ofereceu ao
filho desde moço, que este optou por não respeitar-lhe. Não trabalha, não
estuda, sente repugnância da presença de qualquer indivíduo, enfim, um narciso,
dizia o pai. Martín vence-me durante o dia;
venço durante a noite, nos momentos de fome e desespero. Pena que, por esses dias, faça mais sol do
que sombra.
Martín estava inflexível, recostado no espaldar da cadeira da
mesa de jantar. Não falava. Somente comia. Eu e Laiseca discutíamos sobre Adão,
a maçã e a árvore do conhecimento. Certamente -- dizia eu -- não por causa da fome
que Adão comeu a maçã. Mas por tédio. Sim, o tédio – dizia o professor –, o
tempo em seu estado puro, onipotente. E, com ar de escárnio, olhava para o
filho de esguelha.
E como se o filho ali não estivesse... Martín, por exemplo – confessava o pai – só dialoga com o espelho. E não, não é uma variação do mito de Narciso. Bebe
frente ao espelho, fuma frente ao espelho. Beija-o até. Certa feita, flagrei um diálogo seu-- com o espelho
-- sobre Franz Kafka. O espelho, é isso o que me admira, conhece bem sobre
literatura. Martín, ao contrário, é um completo ignorante. Bem, talvez não seja
tão absurdo. Martín tem 26 anos. E o espelho é mais antigo que Jesus Cristo.
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