sábado, 26 de janeiro de 2019

Tia Velha



Traga duas doses de conhaque Royal pra tomar coragem. Revira os olhos. Soca o peito. Dança, rebola. No quarto, apenas. É velho, mas desejoso. Ainda encabula os mocinhos. Cobre-se com o boné, calvície, unhas em base. Olha-se no espelho e sorri, sorriso felino de dentes cariados, gastos. Perfume de alfazema, cabaré móvel. Tia Velha, como é chamado. Somente pelos conhecidos, pelos que já passaram por sua cama ou pelo corpo sem cama. Para os desconhecidos, compadre, brother, irmão, fera, amigo, tio, dez anos.

Às vezes precisa visitar outras paradas. Demasiado famoso na cidade em que mora. Bicho solto, enrola na mesa de sinuca, sobre o pano verde, matraqueia, engana, endivida-se, paga bebida, embriaga-se, porém não se entrega. Convida. Se desconfiam, gritam: “marica”. O dono do bar esperneia, “sai daqui, Fanta uva”. Mostra a língua afiada, serpente, veneno, cospe no chão e sai. Linguagem própria, em criação. 

Calmo diante da universidade, paciente. Armadilha de passarinho, arapuca, bicho solto; canta, é sereia do mar. Por vezes, acha-se vil na máscara complacente. Naquela parada é preciso dialogar, conversa difícil, pouco interesse em grana. Gente chata do caralho. 

Usa coisa cara, fina, os adolescentes seguem o rastro do perfume de alfazema, acham que é puta. Dá no mesmo. Preferem até. Querem cigarros, uma moto, calçado Nike. A Tia Velha é ligeira, dizem os adolescentes. Desemboca, troca, faz qualquer negócio. E eles carne de bezerro, pelos louros, lábios vermelhos; a Tia faz negócio. Um homenzarrão passa, observa o conluio, inveja, a Tia espia por sobre os óculos escuros e sorri como quem diz: ganhei a banca, a banca é minha. 

Visita obras. Ali está o seu verdadeiro engenho: homem com escolaridade incompleta, que gagueja mas perspicaz na linguagem do corpo. A Tia fala grosso, quer pedreiro, fazer reforma, pintar. Coça os colhões, não deixa o desejo perceptível. Mestre do jogo, do esquema, tarimbado. 
Os vizinhos esperam, gritam: “pegou mais um passarinho”. Finge que não é com ele, trava assunto sobre o tempo com o par que também é pedreiro. Vai dar o bote, está alegre embora dissimule. Silêncio por fora, vulcão por dentro. Traga duas doses de conhaque Royal.

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