A colônia barata, adquirida no mercado e que exalava cheiro
de selva amazônica, perfumou todo o seu quarto e o trajeto até o centro da
cidade. O homem é que seguia o rastro da colônia. Ela imperava. Agora estava
sentado no banco da praça do Zinho, um alquimista proprietário de uma drogaria.
Nesta se podia encontrar da cura do câncer ao perecimento do falo, ou do feto.
Meio-dia. Sentia as axilas encharcadas de suor e a luta do
pelo para conter o córrego. A primeira formiga d´água descia pelas costelas e
se embrenhava nos pelos da panturrilha. Seguida, após, de tantas outras. Algumas
desviavam e iam parar no sexo. O seu corpo/território ainda estava fresco.
Aplicava a colônia barata nos cabelos, na epiderme e, antes do desjejum –
quando havia – gargarejava utilizando o líquido cor de relva. A chuva do corpo
(ou o efeito previsível do subproduto?) não permitia a durabilidade do frescor.
Logo ele era transformado em lamaçal.
Lamaçal também o quarto. Este tão bem adornado com quadros
inspirados na produção holandesa e belga do século XVII. Mas sem água e luz.
Trilha dos ratos, aeroporto de moscas e baratas. À noite, diria Hemingway, o
bicho pega. E pega mesmo! Motel das gatas vadias. Excrementos em sacolas. Os
vizinhos reclamam do vagabundo que joga bosta no terreno baldio. Ele se junta.
Grita, berra, reclama com o SeuAntônio. “A inscrição no muro é bem clara,
SeuAntônio: ‘Aqui não é privada!’”. E SeuAntônio “Vamos fazer vigia para pegar
o desgraçado”. “Eu é que não perco o meu sono”, responde o desgracento. O ranço
persiste pela manhã. É preciso arejar o quarto, sair.
No banco da praça, não mais sufocado por exigências ainda tão
básicas do próprio corpo, como cagar, mijar e sobreviver aos insetos, pode,
enfim, elevar o pensamento. Ser o intelectual que é. Pensar na natureza das
coisas, sobre a essência e Deus. E não no que comer e beber e depois o que
fazer com a comida já excretada... dissimular e conversar com pessoas vis como
SeuAntônio. Precisa de raciocínio elevado. O olhar se detém no dedão do pé
esquerdo que salta do buraco do tênis. O dedo que controla o movimento dos
irmãos menores. Vê o dedão tripudiar nu, sem roupa. Dança na chuva de umidade,
o dedão.
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