sábado, 2 de dezembro de 2017

Matei um homem



A morte, segundo a minha avô materna Santina, é tão dolorosa quanto o parto. Por isso julgo que o finamento de Maurício foi terrivelmente aflitivo, embora silencioso.  Silêncio que é, deveras, a minha condenação; e que me persegue, curva-me o torso, pesa-me a cabeça. Ainda hoje, imagino Maurício aspirando toda a água do rio Panamá; a água se entranhando em seu pequeno e saudável corpo, já vermelho devido ao sol. Imagino o grito reprimido, o punho fechado e o riso, sempre perturbador, do fluido, do sol que pairava indiferente. Imagino a água servindo de alimento ao estômago para em seguida percorrer com ferocidade em direção aos pulmões; o corpo magro já avolumado, irreconhecível, não mais podendo ser chamado Maurício. E a calmaria consumia o ambiente.  As árvores ainda estavam verdes e os peixes com vida. Não, não matei o meu irmão mais novo. Deixei-o morrer. 

Quando mais moço acreditava que o rio era capaz de limpar o corpo – os maus pensamentos, a vida desregrada e outros grandes e pequenos pecados diários. Banhava-me no Panamá à exaustão—informado que o rio pouco cheiroso e de cor verde-escura, purificava-- e recordava do batismo de Jesus no Jordão, pois eu também padecia dos meus pecados. Mas ao sair do rio, porém, a natureza não ofertava maior brilho, tampouco uma voz que descia dos céus. “Há golpes na vida, tão fortes... eu não sei! Golpes como o ódio de Deus... São as quedas fundas dos cristos da alma... E o homem... pobre...pobre! Volta os olhos, como quando por sobre o ombro nos chama uma palmada; volta os olhos loucos, todo o vivido estagna-se, como charco de culpa, no olhar. Há golpes na vida, tão fortes”, versava César Vallejo. 

Ontem, ao entardecer, sonhei com Maurício. Naquele sol a pino do meio-dia ele nadava como um golfinho, afobado, extravagante, exibicionista. Um menino infantil, que ainda fiava em deuses; e eu cauteloso, preciso, o rio exaltando a minha habilidade. E Maurício, na mais tenra idade, era capaz de saltar do mais alto penhasco, travar luta com fogo e crendo, na mais tenra idade, sair ileso. 

Dói-me hoje este brilho ostensivo do sol. Por que não mais frio e lúgubre? Por que nenhuma demonstração de piedade? Não, a vida não me dói aos poucos, mas veio como rio revolto, demasiada para a frágil estrutura.

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