quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Gêmeos e/ou O outro




Cheguei de Coyoacán em maio de 1998. Por dois meses Martín Varelo, argentino radicado no México, conduziu-me pelo pacato bairro e romanceou, ainda mais do que os poetas, a morte de Trótsky. Apesar do pouco tempo passado em terra estrangeira, já não identificava as ruas de Fortaleza. Eu estava deveras perdido na cidade em que nasci. Ainda me acontece: desconheço amigos e familiares, objetos e lembranças. Torno-me Adão, o primeiro homem criado que tudo estranha mas que fica maravilhado com o que encontra.  

O pálido taxista, naquele dia, informou da nossa chegada ao endereço designado. E aquela casa, também pálida, estranha entre prédios, foi apontada como minha. Na sala de estar ouvi o rosnado de um cão. Mas eu nunca tive um cão – lembro ter pensado. Sempre fui incompatível com esse animal: tão dócil, tão incompleto e por isso tão sedento de companhia. Possuí um gato, que se chamava Gato, em algum momento antes da viagem e que somente por necessidade me visitava uma vez ao dia. Avistei o cão quando caminhei para o corredor. Um bicho grande, demasiado para o tamanho da modesta casa, branco e peludo surgiu. Mas não recuei. Desejava logo adentrar no quarto para acomodar as malas e deitar. 

Em minha cama outro homem jazia. Ao seu lado, sobre o criado-mudo, o rádio estava em uma estação que eu conhecia, pois é a mesma que embala o meu sono. Fiquei estupefato. Educadamente tossi, como quem diz: estou aqui, senhor; esta é a minha casa, a minha cama e o meu sono. Olhou-me mas não fez caso. Eu não passava, para ele, de uma ventania ruidosa. Não pude deixar de notar a nossa semelhança. Ele um pouco mais velho, com os cabelos já grisalhos e mais longos e um pouco menor em altura... e com um cão; e mais folgado, certamente. Ainda assim éramos idênticos.

O quarto estava diferente. As paredes desbotadas e os móveis, velhos. Uma bengala cor de marfim pendia da poltrona. E eu apenas o observava e temia tocá-lo; temia porque desconhecia, porque não o entedia. Esta cena, mesmo depois de Adão e do esquecimento, nunca arrefeceu ao longo dos anos.

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