Doem-me as costas. Também os pés.
Sofro certo desconforto generalizado. O que é natural e derradeiro se aproxima;
posso sentir. Não me incomoda, de toda forma. Sócrates estava mesmo
entusiasmado diante da morte. Em nada me comparo a Sócrates. Sinto como se estivesse realizando uma
mudança e o trajeto por si só não causa nenhum sentimento relevante. Quando
instalado em nova morada é que posso entristecer ou alegrar.
A história se repete. O que foi
voltará a ser, o que aconteceu, ocorrerá de novo, o que foi feito se fará outra
vez; não existe nada de novo debaixo do sol (Eclesiastes 1:9). Agora penso na
minha condição e nos outros que
interpretaram igual papel. Não preciso,
aliás, caminhar longamente para obter êxito. Os meus pais viveram nesta casa,
comeram a mesma comida e escreviam, tal como agora faço. Apáticos e taciturnos,
morreram nas mesmas circunstâncias em que me encontro. Então, não posso esperar
nada de diferente! Judas, por exemplo, está sendo reinterpretado pelo o meu
mais velho irmão.
Algumas bocas por aqui reclamam
do velho mentiroso. No meu estado não desejo ter nenhum compromisso ético.
Agora, inclusive, posso estar roubando, falseando. Como adoraria ser um dos
personagens de Dostoiévski, seres essencialmente repulsivos e sem educação. Mas
tão humanos. Bem, sou sempre flagrado, pois sou deveras uma farsa. Não tenho
essência. Somente fantasia. Essa coisa efêmera que tudo é e nada é.
Talvez um pobre-diabo leia este
desordenamento e se aborreça. Sim, todas as palavras são aleatórias e nada
dizem respeito ao leitor. É um diálogo que travo comigo mesmo. Odeio conversar
com outros; são incapazes de compreender e agem como animais. Um autor que
desconheço disse: “O povo comum parece com os humanos; algo tão parecido eu
jamais vi.” Ora, ora, talvez a frase
seja minha. Ou não? Poderia ser, entretanto. Não tenho nenhum compromisso com a
verdade. Roubei mesmo todo este parágrafo.
A vida é demasiada curta. Um
lapso. Gostaria de ter amado promiscuamente na juventude. Ou apenas amado. Não
tive coragem e estou só. Ontem sonhei que dançávamos, eu e uma enamorada da mocidade,
nus. Deitávamos nus e existia certa preocupação com o resfriado. Dançar nu é
uma entrega tremenda. É amor. Mas nunca travei palavra com a enamorada. Que
tristeza!
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