| Fotografia: Michael Holanda |
A fotografia me faz ver melhor, e, como já dissera Miguel Esteves, escrever sobre a fotografia obriga-nos a vê-la mais, a debruçar-nos, de corpo todo nu, sobre suas linhas e cores: porque não basta ter olhos para ver.
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Os meus pés desviavam-se das lápides (que são árvores não naturais) como de terrenos acidentados, criando caminhos; adivinham eles — que somos um nós — que abaixo de outros pés estaremos, inexoravelmente?, que adoçaremos frutos, se frutos houver nestas ou noutras terras?; intuímos ou não que o nosso último logradouro será este: Cemitério Nossa Senhora da Conceição, Rua Beco Treze, Centro?; ou quiçá Cemitério Parque da Saudade, Rua Manoel Conrado Filho, Lagoa Seca?; ou ainda em estradas carroçais em que, segundo Euclides da Cunha, inumam-nos ali (os mortos) "para que não fiquem de todo em abandono, para que os rodeiem sempre as preces dos viandantes, para que deponham estes uma flor, uma recordação"?
Toda a terra é uma jazida, se assim não fosse, não haveria palmo de chão para enterrar os mortos, pois estes sempre sobrepassam em número os vivos. Naquela Quarta-feira de Cinzas, habitava em mim uma disposição para o trabalho de atirar com a câmera: estar e não parecer, ver e não ser visto, como que assentado na última fileira de bancos de um ônibus: somente ser pressentido. Ora, a casa dos mortos estava cerrada, descansava ela — e seus habitantes — de suado carnaval?! Demorei-me, ou horas demoraram em mim, até que silenciosamente o portão descerrou-se, mas sem se abrir. Adentrei. Muitíssima gente, como é de se presumir, porém, de mortos; nós, os vivos, contávamos dois: um gato e eu, cúmplices. "Ficou só o silêncio, que é a linguagem das coisas que já não são", matéria primeva da câmara fotográfica.
| Fotografia: Michael Holanda |
| Fotografia: Michael Holanda |
| Fotografia: Michael Holanda | |
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