sábado, 8 de fevereiro de 2025

O léxico da casa

 

 

 "Levantai, ó portas, os vossos umbrais,
alteai-vos, pórticos antigos."

 

Giorgio de Chirico, 1913

 

Cada ser possui a sua linguagem, sonha o seu sonho. O punhal de Borges, forjado em Toledo, "sonha seu sensível sonho de ser tigre", anseia tomar vingança; por já ter bebido do sangue como água, não se sacia; "quando o empunha, a mão se anima porque o metal se anima"; o punhal dança com os dedos, cerrando-os em volta de si: valseiam uma morte.

O homem compartilha a mesma sorte (ou sina) com o objeto. Coisas e homens resistiram à travessia do deserto egípcio: "as vestes não envelheceram sobre ti". Crucificado Cristo, deste tomaram as vestes, despedaçando-as para dividi-las. Comunicou-nos um antropólogo norte-americano que "as coisas se confundem com os espíritos... os instrumentos para comer se confundem com os alimentos".

Quão soberba pode ser uma construção que se eleva a tocar o céu, sem ser pássaro, travando uma luta infindável contra a gravidade!? Desconhece ela que "alto" pode igualmente caracterizar aquilo que é raso e superficial ("sei por alto" é nada saber). Ou um umbral demasiado baixo a fim de que o homem reverencie o que se guarda, ou se oculta após o limiar?! O que comunica a porta que está sempre fechada ao homem, ou a vidraça fria e frígida que segrega? 

 

Giorgio de Chirico

 


A Coroa é que coroa o rei; a batina converte o homem em clérigo. Mormente, os encontros entre coisas e coisas são em maior número que entre homens e coisas, e estes, por sua vez, abundam em relação aos encontros entre homens e homens. Sei por oitiva que outrora os móveis atravessavam o Atlântico mais acomodados que a tripulação humana, mais humanos que humanos... europeus.

São muitos os signos a cobrir uma casa, a construir um lar; sem eles, estamos desnudos. Desconheço um vocabulário tão esmerado: aldrava, pórtico, arco, portal, tramelas, átrio, dintel, ombreiras, alpendre, soleira, claraboia...e desejo deter-me em "arandela", propor uma outra origem etimológica, não verdadeira, porém bela. Que aceitemos consensualmente, em nome da beleza, que "arandela" tenha a sua origem associada ao substantivo feminino latino "ara", que significa altar dos deuses. "Arandela", portanto, é o altar da luz.

 

 

Giorgio de Chirico 


 

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