domingo, 19 de janeiro de 2025

Não é uma crítica e/ou um filme que Roman Polanski não fez e/ou o futuro... dos ponteiros

 

 

2019

 


Há quem viva com os relógios adiantados, habitando o futuro. Paradoxo é que esses mesmos homens, em relação a seus irmãos, consomem informações frias. Vejamos. Em 13 de janeiro de 2025, às sete da manhã, o sítio da Enciclopédia Britânica lembrou-me que, em um dia como aquele — porém de 1898—, Émile Zola publicava carta aberta (intitulada J'accuse) ao presidente Félix Faure, em defesa do oficial francês Alfred Dreyfus, então já confinado na Ilha do Diabo, por revelar segredos militares à Alemanha. Ora, Júlio, amigo da minha infância, que habita doze horas no futuro dos ponteiros e altivo é por esse motivo, foi informado pela mesma Enciclopédia às sete da noite. Disse-lhe para apressar-se devagar (velha expressão latina), poque devagar se vai longe...ele, então, fez os ponteiros retrocederem... para horário do Amazonas.

 

Sem título (Dadá), 1922-1923, de Max Ernst

 


Como um signo remete a outro signo que, por sua vez, remete a outro, permito-me esferograficar sobre o filme J'accuse, drama histórico baseado no caso Dreyfus, do diretor Roman Polanski. De modo diverso, foi intitulada a obra na sua chegada às terras de Macunaíma: denominaram-na de "O oficial e o espião" — desconheço a bilheteria do filme nestas imensidões brasilianas, contudo é possível ler "bancarrota"; perdeu-se o vigor e viço do verbo que, ademais, apresenta-se como intransitivo; perdeu-se o sujeito onipotente e onisciente que não permite ao verbo trânsito, mudança; esse que acusa exige condenação, apelação não há: a epígrafe original contém massa, estatura, cor (consigo vê-la acinzentada), habita nela o Exército... francês. O "eu acuso"da narrativa fílmica é primeiro (o Exército acusa) e distinto daquele do escritor francês (que acusa o acusador) ao presidente. Se mesmo Zola não temeu e tampouco poupou os adjetivos em sua carta, não serei eu a contê-los para qualificar esta obra de Polanski. Trabalho minucioso e belo que altera o fluxo da respiração, faz-nos transpirar. Ganhou duas premiações relevantes em âmbito europeu: Prêmios César de Melhor Roteiro Original e Melhor Direção.

No drama, revela-se mais sobre o exército e as suas personagens do que do jovem judeu Dreyfus e seu aprisionamento na Ilha do Diabo, sim, a mesma de Papillon. Conhecemos o cinema de Polanski, que erige com frequência o inferno sartreano: uma, duas, ou três personagens, dentre elas, o cenário cerrado, um apartamento (que deriva do verbo apartar), por exemplo, que, ainda que sem coração, pulsa, teme e é temido. O que foi essa prisão localizada numa ilha na Guiana Francesa? Um pequeno lugar claustrofóbico, uma demência que é lugar, em que nada passa e tudo passa. Imaginemos um homem encerrado duas vezes, pela ilha e pela cela, com paredes-espelho, ou paredes de singelo cimento, que nada mostram, mas capazes de suscitar tudo; espectros mais reais e corpóreos que se reais realmente fossem. Esse filme, assim descrito, Polanski não fez, não aqui, não neste. No entanto, ao estilo kafkiano, existe a ambiência sepulcral, funções que são homens, largos corredores, espera, recantos, sugerencias, paramentos, murmúrios...o Exército.

 

 

 

 


 

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