domingo, 22 de dezembro de 2024

Dar à luz




Estamos nas cercanias do Natal, do nascimento que é dar à luz, ser entregue à luz -- expressão tão significativa, que passa pela língua de muitos, embora pela papila de poucos. A luz que provém do sol, mas antecede o sol. Antônio Vieira, que conhecia os tropos como poucos e os usava como ninguém, associava o sol a Cristo, e, à Maria, a luz. Ainda que não vejamos o sol, a luz já está presente na aurora. A luz é primeira. Haverá quem pense, e diga, que acima reside uma contradição. Mas a contradição só habita nas palavras. “El sol, con lanza luminosa, rompe la noche y abre el día; bajo su alegre travesía, vuelve el color a cada cosa”, versos das Laudes.

Em 2008, Antônio Fuentes Trujillo ofertou-me três coisas: uma moeda de cinquenta pesos argentinos, a qual levo agasalhada até hoje na carteira, a leitura que ele fez para mim, sob o pacto de nada confessar, do artigo “De un inmigrante y exiliado político: Joshúa de Nazareth” e, concomitantemente, o autor do texto, Enrique Dussel. Deste, comentou que, por causa de uns e doutros textos, haviam tentado assassiná-lo, instalando uma bomba em sua “vivienda”. Por sorte e casualidade, em 2015 pude encontrar o artigo em versão digital no sítio de La Jornada. Desde então, próximo ao Natal, retorno ao texto, como em um ritual.

Dussel era o homem “com um coração de carne que falava com palavras como espadas diante dos juízes”; uso mais uma vez um verso da Liturgia das Horas que me causa fascinação, visto que a espada (signo da justiça) é trasladada das mãos do juiz ao daquele que possui um coração de carne. A palavra, semelhantemente, não está na posse do magistrado, coisa curiosa, aliás… nem um pouco. Relembremos Joshúa combatendo os mestres da lei.

Pude assistir em 2020, de modo assíncrono, as aulas de estética do professor Dussel para os alunos da Universidade Nacional Autónoma de México. Na aula inaugural do curso, o professor Dussel apresenta-nos um pássaro chamado canário-do-mato que, quando ao sair do sol, amplia suas asas como em adoração ao astro. O sol é possibilidade de vida, tanto para o homem, quanto para o animal. Dussel recupera etimologicamente o sentido de áisthesis: um sentir que vibra em toda a corporalidade.

A luz que provém do sol volta a dar cor às coisas e, por isso, as coisas passam a ser, pois são entregues à luz.
 
 
 
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O texto publicado em 2007 do professor Dussel pode ser encontrado em: https://www.jornada.com.mx/2007/12/27/index.php?section=opinion&article=016a2pol&fbclid=IwY2xjawHJ8bhleHRuA2FlbQIxMQABHdDxTK7IpXFWLmI73UzHGDvzD7RwRwaeEvRJXjUH8glOqOYvNJwAqKNUNQ_aem_FDIM55-yFdO4XutyFH9cRw
 
 
 
 
 
 

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