![]() |
Booths near Paris, 1876, de Victor Vasnetsov |
É a hora sexta mas não da sesta, ao menos não para os proletários do mundo. Horário de prova e julgamento para o Cristianismo e, para um filósofo alemão, meio ensandecido, hora em que tudo se faz claro e sem sombras (o que, em verdade, é antes uma constatação); hora em que uma personagem do mesmo filósofo tira uma sesta em pleno sol a pino. O proletário, por sua vez, traga um bocado de algo para energizar-se, a fim de que uma máquina o coma durante o restante do dia. Sabiam que em Grécia a jornada laboral foi estendida a seis dias semanais, até treze horas diárias?
Empunhei caneta com o intuito de escrever uma crônica banal, mas sou consciente de que a escrita nos escreve e escreve a si mesma. Ela é o sujeito. Vejamos o que se segue, se algo segue.
Em casa, no horário da sexta, ouço o gemido de uma carreta; logo olfateio o cheiro que inundou, talvez, dois ou três quarteirões, de uma máquina morta ou quase morta. Debrucei-me sobre o parapeito da janela, e, sem assombro, verifiquei que todos os vizinhos estavam a gozar, a ver o monstruoso automóvel negro a ranger, a esfumar. Na cauda da cabina a inscrição: "Circo France"; ao derredor da carreta, homens e mulheres, nada franceses, gesticulando, desgrenhados e bramindo. E os espectadores a gozar, esse gozo de não se sentir envolucrado na desgraça, podendo, embora, observá-la. O trânsito se avolumou, pois o automóvel ocupava as duas faixas da via de tráfego rápido.
Pude observar o desfecho nada convencional da trama; após tamanha algaravia a carreta gasniu uma última vez, soltou uma baforada malcheirosa no ar... e partiu. Se foi uma simulação, não saberei dizer; contudo, soube dois dias depois que o mesmo circo instalou-se na cidade. Se foi uma simulação, simularam tão caprichosamente que chega a ser verdade aquilo antes simulado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário