"Um homem toma uma bebida; a bebida toma uma bebida; a bebida toma o homem."
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O prolongado sonho do Sr. T.
Francesc Capdevilla -- ou simplesmente Max. Aquele nome pertencia-lhe mesmo antes de nascer; estoutro foi tomado (e criado) para si: um autor e dois seres. Esse ser dois e não um ilustra bem a criação do artista espanhol, que aspirou a narrar a vida interior da personagem T., porém o interior borbulha na pele, faz-se visível e tem odor nauseabundo: o retido escapa, emerge inevitavelmente, como corpo morto jogado ao mar que, quanto mais morto, mais sobe, mais se eleva. "O prolongado sonho do Sr. T. é a estória de um santo, de um nobre, ou de aparente nobreza e santidade, que tropeçou com o seu eu pecador. É a narrativa do que não deve ser narrado, porque foi silenciado; o que foi silenciado retorna e silencia o homem. Imperativamente faz calar o homem para que veja, sem mesura, o que ocultou.
O
inconsciente fez Cristóvão T. dormir por quarenta dias -- e sonhar!?,
todavia um sonho prolongado deixa de ser sonho. Cristóvão caiu como caiu
Adão, como caiu Lúcifer, caiu nas águas calmas e tormentosas que,
lembremos, é coisa anterior à criação: "e o Espírito de Deus pairava
sobre as águas". E não há luz. A personagem encontra o seu déspota, o
grilhão que pesa sobre os pés... encontra a si mesmo. É a faca que
penetra a pele e pele a ser perfurada... algoz e vítima, agente e
paciente.
T. está nu, sem se aperceber disso, e por isso mesmo naturalmente nu; com o coração nas mãos a pulsar, a sangrar, peito aberto, a olhar por sobre o ombro outro homem maior, quase acima, que ri e olha -- olhar que despe o despido Sr. T.
***
Antegozo, anticlímax do tigre que, após farejar a presa, tê-la ao alcance, retesados os músculos para o salto, dá meia-volta e regressa à montanha saciado, sem que a tivesse comido. Comer seria o ato menos nobre, afinal.
O prolongado sonho do Sr. T., da editora Zarabatana Books, 2006.




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