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| Christ on the Sea of Galilee, 1841, de Eugene Delacroix |
Decreta o poder que habita em mim, desvalido, que sextas-feiras sejam todos os dias. Que não haja domingos, que não haja as tardes dos domingos, sobretudo. Diz-se que os suicídios acontecem maiormente no primeiro dia da semana. Eliminemos sem tardança seis palavrinhas, seis substantivos que compõem o semanário, com exceção, é claro, das sextas-feiras: do uso primeiro, do dicionário em seguida, e acabemos com o autoflagelo -- pequena mudança mas grande efeito. Não foi um físico alemão que sentenciou (ou teria sentenciado) que se as abelhas fenecessem a humanidade pouco tardaria no mundo? Nenhum esforço é despendido ou desmedido para que se salve uma vida, que é toda a vida e o cosmos e segredo.
No âmbito cultural, decreta que todas as sextas-feiras sejam de carnaval, e nunca um dia após o carnaval; aqui, entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio, somos afeiçoados à embriaguez mas não à ressaca. Carnaval, sim, para que as ideias estejam sempre desfilando na passarela de todas as ruas, sobre carros, e nunca ao relento e cabisbaixas nos dias comuns, os quais não mais existirão.
E o mais político dos decretos: que o Natal seja a única história a se inscrever nos livros daqui como de acolá. O Natal como antecipação do carnaval; conhecer o primeiro para gozar o segundo. Assemelhados ambos como são historicamente: afirmação da vida apesar da pobreza, apesar de césar e herodes, acima deles e esquecidos eles; exilamento, nascimento na manjedoura (donde comem os animais), contudo e por isso mesmo, redentor. Redentores, agora, todos os dias.
Decreta o poder em mim, e como tal, deseja imperar igualmente sobre o natural: maduras e viçosas sempre as frutas.

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