sábado, 15 de junho de 2024

Uma quase ou duas laudas: Fortino Sámano morre e ri

 

Fortino Sámano, assassinado em 1916. Fotógrafo desconhecido. Imagem retirada do Instituto Nacional de Antropologia e História do México.




Conjecturam que Fortino Sámano fora mártir ou capitão, assim creem enobrecê-lo; sou, porém, de opinião diversa. Anima-me imaginá-lo como homem trivial, jogador de truco que aposta casa e alma, resignado, assim, com o acaso do jogo -- em que ora se perde, ora se ganha, e a derrota é a constante. Também o imagino como falsificador de notas e identidade. Ademais, o cotidiano exige mais heroísmo do que a guerra; menos difícil é ser Napoleão do que Fortino Sámano.

Condenado, foi levado ao paredão de fuzilamento, ritual funesto que tenciona prenhar de significação e legitimidade o assassinato. Morto não por um, mas por muitos; não um disparo, que seria suficiente para o fim desejado, mas por simultâneos.

Há muitas ausências presente na fotografia. Sámano estava cativo, quem o vê não se apercebe disso; morto, ainda que sem o estar. Sorri, cigarro acesso entre os lábios: este perseverá -- por mais alguns minutos --, embora Sámano esteja já morto. Ambos (homem e cigarro) tombarão, como coisas, como assemelhados.

Henri Cartier-Bresson somente possuía uma fotografia de má qualidade, de um autor incógnito, afixada em seu ateliê: Fortino Sámano sorrindo. A fotografia mostra, não narra. É a arte de Tomé, dos descrentes. Ainda que saibamos que a imagem pode ser forjada -- e costumeiramente o é, por certas ciências ocultas. Há de se ter cuidado com as imagens, sabia Henri, sabe Abbas Kiarostami.

Quanto ao sorriso, é de um louco ou de um são? Semelhante ao de Sócrates momento antes de ingerir sicuta ou do pastor de Zaratustra que abocanhou a cabeça da serpente: não mais pastor, tampouco homem
?

E se a fotografia não possui história (pouco provável), inventamo-la.

 

 

 

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