sábado, 1 de junho de 2024

como uma luva de veluado moldada em ferro

 

Obra de Daniel Clowes -- arte e argumento

como uma luva de veludo moldada em ferro



O título é de Daniel Clowes, mas aproprio-me a fim de fazer de outro coisa minha. Logo assumo os erros, e, quanto aos acertos, atribuo ao autor original. Nada mais justo.

Falsamente cremos que o título é algo que cerceia a obra, veste que encobre o corpo, seduz, excita, mas não é a causa do gozo; o gozo como algo que vem posteriormente, depois de despida a veste. O título, entretanto, é já a obra, não é fumaça mas o próprio fogo. Por isso debruço-me aqui maiormente sobre o título, que nos dá o prazer de uma meia metáfora, em que há uma lacuna, uma ausência. Poderíamos indagar se uma metáfora parcialmente é uma metáfora, se um cão sem orifícios é ainda um cão (uma mascote presente na obra de Daniel); como devem ser chamados os binóculos que possuem a forma de binóculos, mas que são perfume: detenho-me à forma ou ao conteúdo ao nomear? O que é, ou quem é como uma luva de veludo moldada em ferro: seria a estética do autor?, uma personagem?, moraleja contida no enredo? Seremos possuidores em algum momento desse signo não contido?, de signo que, embora ausente, provoca-nos? E como não bastasse, o autor insere na metáfora outra figura de linguagem: a antítese: a maciez, o doce do veludo e o férreo ferro, amargo; um veludo ferroso ou ferroso veludo? A metáfora é uma tensão semântica, explica-se a metáfora com outra metáfora, ad infinitum; ela opera sentido por meio do contrassentido.

O desenvolvimento (e sobretudo o que está por vir) pode parecer-vos patético, mas já dissera Rachael de Queiroz que um escritor deve desconhecer sinônimos (que sinônimos não há); Eduardo Coutinho, por sua vez, abolia os artigos dos títulos, pois eles tiram a vivacidade dos substantivos. Ou seja, há de se cuidar da língua. Tratemos, pois, com esmero a Daniel -- e todo autor, particularmente a mim, porque a obra de Daniel, em meu texto, é mais minha do que dele. De todo modo, nada pretendo encerrar, mas ampliar, buscando e fornecendo novos sentidos. A interpretação não esgota o signo. Sem temer a censura ou a vergonha, tratarei da preposição -- essa coisinha miúda e dependente de um antecedente e um consequente -- contida no tropo. No nosso caso, "moldada" e "ferro" ligadas pela preposição "em". O que significa uma luva moldada (em) ferro?, existe distinção para "luva moldada (a) ferro? A luva de veludo é feita de ferro?, ou o ferro é o instrumento que produz a luva, não sendo ela mesma de ferro?, ou há um molde de ferro em que a luva de veludo é moldada, no ferro ganha contornos e logo é retirada do molde sem conter no mais mínimo outra substância que o puro algodão veludo?

Em espanhol a obra do norte-americano foi traduzida como "un guante de seda forjado en hierro". O verbo foi modificado. A forja, pensemos agora como substantivo, é um objeto mais visual que o molde. A forja de ferro, à custa de marretadas, cria a suavidade do artigo. Mas a polissemia se dá em ambos os casos. Talvez alguém exija o uso do princípio de Ockham (o mais singelo é o mais provável), que substituamos o "em" pela contração "em" + "o"= no: luva de veludo moldada no ferro, forjada no ferro. Não me contenta e isso acima anteriormente foi abordado. Aliás, o mais provável é que os dois verbos desejem exprimir o fabuloso ato da criação, sem mais.

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A riqueza de Daniel Clowes também é visual. Desejo sucintamente descrever dois de seus três primeiros quadros. Abaixo.
 
Obra de Daniel Clowes

 


I. O primeiro quadro nos apresenta Clay, no umbral de uma porta que indica saída, embora ele esteja entrando. Ainda há luz onde ele está, contudo o negrume vai se agrandando à medida em que se avança na peça, que é um cinema vulgar e de escasso macharal.

 
 
Obra de Daniel Clowes

 
 
II. Vemos uma senhora que mostra, sem insinuação, os seios a Clay, como quem vende bala ou pão, chama-lhe de campeão: o que ela imagina que ele gostaria de ouvir, melhor, o que esses homens que ali habitam precisam ouvir... mas Clay já tem siso e sabe que estar em penumbra assistindo a um filme parte pornográfico, parte dramático, com raros homens com mãos nas braguilhas, não é o lugar onde um campeão estaria. 
 
 

como uma luva de veludo moldada em ferro, primeira edição, 2018, editora Nemo.





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