sábado, 23 de março de 2024

X-men: não mais humanos

 

Roteiro: Mike Carey.               Arte: Salvador Larroca

 

 

Barbaricus -- caracterização daquilo que é estrangeiro, bárbaro, inculto. Bárbaro é aquele que difere, é um outro exterior: seu modo de habitar é distinto, assim como sua língua. Há também o outro interior, como foi a mulher na Grécia antiga. As esposas eram, essencialmente, uma ferramenta pela qual o filho vem, é entregue à luz -- que fosse um filho homem, decerto, para que este pudesse tornar-se o pai, não um pai, mas o pai, uma cópia de seu progenitor. Aí há uma mimetização do igual. A mulher é um outro interior no seio de uma sociedade que busca iguais; e como outro que é, está à margem. Bárbaro, estrangeiro, estranho, externo, outro, pertencem ao mesmo campo semântico. Não estranhemos que nessa tradição o inferno sejam os outros, como dissera Sartre. O inferno é um apartamento de dois cômodos em que se precisa viver eternamente com as pessoas mais distintas.

Julgo que essa introdução é uma das possíveis para abordar a narrativa gráfica dos X-men: Não mais humanos (no more humans). A novela gráfica de Mike Carey e Salvador Larroca conta com uma antecedente chamada "Deus ama, o homem mata", de Chris Claremount, publicada em meados dos anos de 1980. Conquanto sejam consideradas novelas independentes, a clássica história de Claremount é a causa sem a qual a narrativa subsequente não viria a ser o que é. Tardemos sobre o que vem primeiro no tempo, porque o que é primeiro é mais forte e poderoso.

Em "Deus ama, o homem mata", Stryker é um reverendo e responsável pela criação de um grupo de assassinos fiéis (fiéis assassinos) chamado Purificadores. Estes perseguem, matam e expõem os corpos de mutantes mortos. Para o fanático reverendo, os mutantes não são humanos e, por conseguinte, o assassínio é legítimo. O objetivo de Stryker é a completa erradicação dos mutantes. Ora, isso nos faz recordar o genocídio indígena que ocorreu nas Américas a partir do século XV, em que indígenas eram comparados a animais e logo escravizados e mortos. Uma vez mais, genocídio em nome de Deus.

 

Roteiro: Chris Claremont
Arte: Brent Anderson



Muito bem, talvez eu esteja me distanciando demasiado do tema, que é a novela gráfica "Não mais humanos". Vejamos, há uma razão e um indício se me detenho na novela anterior quando o objetivo era a novela atual.

X-men: não mais humanos", de Mike Carrey, se debruça, mais uma vez, sobre o genocídio, mas sobre o genocídio do homo sapiens. E aqueles que foram oprimidos, como em "X-men: Deus ama, o homem mata", passarão a ser os opressores: com exceções. Os argumentos são sempre cínicos, o assassinato sempre é justificado e justificável para o homicida, não há assassinato sem um discurso (mesmo que monológico) que o autoriza: não se mata em silêncio. Agora haverá vingança, e o nome do déspota mutante é Asuelo, filho de Mística e Wolverine.  

 

Roteiro: Mike Carey               Arte: Salvador Larroca

 


X-men: não mais humanos                                  

                                                                            

Roteiro: Mike Carey
Arte: Salvador Larroca



X-men: Deus ama, o homem mata

Roteiro: Chris Claremont
Arte: Brent Anderson

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