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| Gustave Moreau, 1865 |
Guimarães Rosa, certa feita, escreveu que amar é vontade de beber que água nenhuma é capaz de saciar. Certo, talvez ele não tenha dito com essas palavras ou quiçá jamais tenha dito coisa que se assemelhe. Não importa, de todo modo. Amei, amigos, amei por quatro ou cinco quilômetros, a uma velocidade média que estimei em sessenta quilômetros por hora. Com esses dados aproximados, imaginem por quanto tempo estive apaixonado. Ora, se já chegaram a afirmar que não se pode medir o amor, naturalmente sou uma exceção e prova irrefutável do contrário: ele pode, também, ser medido em metros.
O sol banhava uma máquina de ferro e força que rugia no asfalto. E nós -- não éramos em verdade um "nós", porém um "eu" mais uma outra quantidade inumerável de "eus" que ocupávamos em promiscuidade o interior do ônibus, veículo que é para todos e para cada um. Digamos que a minha história é a história de Orfeu e Eurídice contemporânea. Não se pode exigir demasiado, amigos. Sentei-me ao lado da moça... e imaginem o que eu imaginei...ao lado dela, pensei muito e nada falei. À distância, muito falei e nada pensei. Um mero erro de cálculo.
Desci no meu ponto, pois se postergasse a descida, mais quilômetros havia de andar. Não é de todo certo que o amor a tudo resiste, portanto.

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