A tela de Dalí não é a melhor representação do tempo de Júlio, de Júlio no tempo. Vejamos.
Os ponteiros de seus seis relógios apontavam números distintos. Cada relógio era a gênese de uma criação gráfica que não chegaria a ser nunca: podia-se ler uma reta, um ponto, retas e pontos. Toda a geometria estava ali, em potência; o mundo mesmo ali estava. O que optei por chamar de criação, foi chamado de deformação pela doutora Petra Barbieri, que deste modo se expressou: Júlio é uma cidade sem sinais e, portanto, sem orientação. Está perdido, ou, na melhor das hipóteses, perdendo-se. O que eu via em abundância a doutora via em escassez. Os sinais, os signos... é preciso aprender a lê-los. A doutora Petra Barbieri, que se fazia anunciar e se apresentava com todos esses caracteres era a abundância. Júlio, o Júlio da doutora era a deformação por inanição. Enquanto a doutora Petra Barbieri resolvia, em tom afetado e academicamente, bebericando um café numa alta manhã, todos os mistérios universais, sobretudo os mistérios de Júlio, este dormia. Porque Júlio estava a doze horas adiante da doutora e só Deus sabe a quantos quilômetros de distância. Poderíamos dizer, ou melhor dizer: Júlio estava orientando-se pelo relógio de cor verde esmeralda, que cabia na palma de uma mão e indicava vinte e duas horas. Sobre o relógio havia uma indicação retangular em papel cartão -- Tóquio, Japão. Mas Júlio estava mais lá do que cá? mais são do que enfermo ou mais enfermo do que são?, indagações astutas da mãe de Júlio para a doutora Petra Barbieri. Tentemos compreender sub-repticiamente o que o dito pela mãe de Júlio queria dizer. Onde está Júlio agora, em Tóquio ou no Ceará?, precisamos buscá-lo ou levá-lo?, o parâmetro da fisicalidade das coisas impera sobre a imaginação e sobre o tempo? Júlio, por acaso, não é coerente com o tempo em que escolheu viver nos últimos dias, particularmente? São vinte e duas horas em Tóquio, segundo o relógio verde esmeralda, hora propícia para o sono, não é assim? Às onze horas (em Tóquio) almoçou arroz e molusco, embora no Ceará, o relógio nacional apontesse vinte e três horas.
Não sou um "starmen", porém, a despeito do almoço (arroz e molusco), Júlio parecia -- parecia -- agir com bastante verossimilhança. Quando era a vez do relógio cor de café imperar sobre o tempo, tomava o chá às dezessete, agasalhava-se, porque tinha a impressão de que em Londres fazia frio. Sem ser um "starman", e por isso mesmo cheio dos vícios terrenos e erros humanos, posso pressupor que o tempo, para Júlio, não representava a morte, era a vida do mundo sem a morte do mundo, sem a antítese. Sim, o tempo fisiologicamente certo pelo tum-tum de seu coração, mecanicamente ajustado pelo tic-tac do relógio. Dentro desse universo juliano, com suas regras, no tempo nada se perde e não se ganha -- ao revés do que pensam e acham deveras os ilusionistas do tempo. A doutora Petra Barbieri pensa mais ou menos igual aos ilusionistas. Não conheço a doutora Petra Barbieri o suficiente (e já não me cai bem), contudo, caso ela lesse o que aqui vai escrito (o que não fará porque, para ela, tempo é dinheiro) exigiria algumas correções... a principal: "Doutora, com dê maiúsculo, por favor".
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