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| Guido |
Naquela praça, sentado em um banco, via que os cães ali não cagavam e não havia gatos, somente peixes coloridos em aquários. Estava ao lado da única banca de jornal, com seis impressões expostas, bombons, placas publicitárias de telefonia celular e um breu interior, que denotava o próprio espírito do proprietário.
Ao derredor, homens gordos, rosados e velhos; mulheres bem-vestidas do tipo hollywoodianas: armários cheios e cabeças igualmente cheias -- de minhocas. Que bom que eu não pertencia àquele lugar. Não pertencia a lugar nenhum, em verdade. Porém, que bom não ser dali e ser de qualquer outro sítio.
E para quê toda essa higiene disfarçada para homens, e mulheres, ridiculamente afetados? Homens que pagavam uma cerveja, uma cerveja, e gastavam por ela mais de quinze contos de réis? Certamente, eles davam vida a cidade, ao modo deles, mas também a matavam. Aquela cidade era um aquário e, ainda que do ar incidisse um cheiro de boutique francesa, outro cheiro, cheiro de gente, podia ser sentido.
Vi um rapazote, vinte e dois anos, talvez mais, talvez menos; foi até a banca e saiu de lá com a impressão de Guido, sub-repticiamente, embalada e abaixo das axilas. Parecia estar cometendo um ilícito ou outra coisa de igual magnitude para jovens de outras gerações: portar um devedê pornográfico, daqueles que apresentam fetiches estranhos, os piores dos fetiches. Gostei do rapaz.
Ei, vem aqui -- disse a ele. Isso não é uma droga e nem se pega cadeia por causa de Guido, estou certo? -- Ora, como eu sabia? -- perguntou o rapazote. -- Não sou novo o bastante e nem velho o suficiente: conheço Guido! Ele ficou aliviado e sorriu. Acrescentei: todo o resto era lixo naquele banca da qual você acabou de sair. Quanto pagou? Quanto pagou por Guido? Na certa, tudo o que tinha. Guido não costuma ser barato.
Vocẽ não mora por aqui, e fiz um gesto que abarcava a praça e um pouco além dela. Ele disse que morava na cidade, porém, a maior distância. Sim, você não tem cara que possui um helicóptero ou um chalé ou uma gata urbanizada; por isso, gostei de você. Não me entenda mal, não sou bicha, somente quero papear com alguém humano e lê, mesmo que esporadicamente, Guido.
Veja, porque é que vocês não picham a porra toda; sei que deve haver muita merda para além dessa praça. Por que não ensacolam e sacodem a bosta toda pelas ruas bem cheirosas? Vocês devem ser muitos, não? Falei como um aficionado, como quem prega e tem fé enquanto prega o que tem a pregar. Depois passa.
Ora, se eu morasse por aqui, deixava esses caras rosadas fulos, assobiava para a menina deles, coisa e tal, gerar um desconforto: um aborto espontâneo neles; eles estão prenhes, entende-me, eles estão prenhes, eles. Porém, vou passar mais uns quarenta e cinco minutos nesse mundinho de fadas e vou-me embora. E você? Eu era um bom pregador, poderia ganhar dinheiro com isso, sem dúvida: um líder religioso ou coisa que o valha; sei falar com tesão e, falando com tesão, tesar os ouvintes.
Mas ele não tinha culhões, coisa bem comum, pelo visto. O aquário o pegou, o tempo do aquário fez o seu efeito. Ele não entendeu a referência. Perguntei-lhe, então, se conhecia Coppola, o diretor Coppola e o filme "Selvagem da Motocicleta". Disse que não mas ia procurar ou pedir que alguém o trouxesse da Capital. Às vezes, é preciso ser imperador, falar com agressividade a esses meninos: "Que porra de procurar, cara, gastar mais uma fortuna...é um filme clássico, porra, não é coisa barata. Nesse fim de mundo não existe internet, pirataria, cópia, o escambau?" O meu tesão estava arrefecendo, o melhor é cair fora enquanto se está por cima. E assim o fiz. Deixei o garoto ali, estupefato e, talvez, sonhando com o que há fora do aquário. Poderia dizer-lhe que não há muito, mas certamente há algo.

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