sábado, 25 de maio de 2024

Alcunha: Arrabalde

 

Napoleão cruzando os Alpes,’ de Jacques-Louis David (1801)

 

Chamavam-no Arrabalde mas desejavam exprimir "debalde". Quando suas vítimas pediam mercê, gesticulava aparente clemência e, ato seguido, penetrava o punhal nas trêmulas carnes. Em vão é a piedade: nem os vermes poupam a fragilidade do inerte, e a mãe-terra traga os seus filhos. Tudo está prenhe de violência: o arrancar das raízes, o rompimento do hímen, o alimento que, ao ser destruído, possibilita a vida. À primeira vista, parecia tão sensível como um carro em alta velocidade. Arrabalde, o nome e não o homem, bem o sabeis, é coisa distinta de debalde; aquele faz referência a um espaço. Se isso também acresce algo ao homem, não saberei dizer. Coisa certa é que um homem pode ter variados nomes, significar muitos nomes, o que é tipicamente humano -- a ambiguidade.

São minguadas as obras acerca do procriador; abundantes, as dos homicidas. O quebrantamento do quinto mandamento parece-nos mais sagrado que o sagrado nascimento. Arrabalde assassinou muitos e morreu sem ser matado. Digo que teve uma morte relativamente tranquila. Mostraria os dentes, se pudesse.

Ele foi escola para os infantes, incluso eu, quando a educação estava em todas as partes e não restringida a um prédio apoucado. Parecerá aos olhos novos um escândalo, porém não nos esqueçamos do primeiro copo, da primeira mulher, apresentados pela estirpe e não pelo estranho.

Pela manhã, o homem que já nasceu homem, desjejuava na rua meretrícia, também chamada "inferninho", uma vez que toda cidade que se preze verossímil tem o seu próprio inferno. E assim que nos via adentrar, a matilha, no covil das lobas, dizia algo assemelhado: entrai, que aqui também estão os deuses, aqui chove e clareia. O matador de gentes tinha a sua metafísica. Não desejo a ninguém "humanizar", caso disso me acusem, aprendi com Arrabalde: a maldado do homem e não o homem mal. Não é certo que na criação se inscreve "a maldade do homem na terra".

Sem pitar e sem beber, com o andar sinuoso de um requebrar feminil, era viril. Imageticamente hiperbólico, discursivamente eufemístico -- o mesmo com os homens afamados, o homem Arrabalde.
 
 
 

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