quinta-feira, 8 de dezembro de 2022


 

“O espelho reflete certo; não erra porque não pensa”, diz Caeiro. Pode-se dizer que não erra (o espelho) porque não é humano?, ou porque a imagem da “coisa” refletida nada é além do que mostra? O que mostra é tudo o que é? O homem, por sua vez, atribuiria o que não é ao que é – errando?
 
O erro é desvio, um percorrer “fora do caminho” – o que se supõe que haja, ao menos, outro caminho, uma vez que caminhar cria caminhos. Ou seja, quem está em erro também percorre um caminho, porém, o do erro. Mas quem, afinal, julga o caminho?, e quem concedeu poder de julgamento ao que julga? 
 
Esta imagem, como toda imagem, é um erro, e há nela erros múltiplos. Todavia, falarei de dois. O erro do espelho, ou por acaso não é certo dizer que sob a superfície da água há cores, odores, mistério? O pescador bem o sabe quando se demora junto ao reflexo do lago…existe mais do que a imagem. O segundo erro, do qual me orgulho, é a marca constitutiva do ser e de ser autor: a marca deste é o erro, não o acerto. Ou, como dissera Borges, o erro é humano; o acerto, divino.


 

 

Quando o fotógrafo aponta sua câmara, para quê ou quem aponta? Aponta, aposto, para si e para o outro, simultaneamente, e, por vezes, inconscientemente. Mas isso não é tudo. O fotógrafo oculta remetendo e revelando: restringindo tempo e espaço do objeto fotografado, enquadrando-o, matando-o no instante -- pode-se dizer como a um atirador --, ao mesmo tempo dá vida ou dá “presença” no momento em que o objeto concretamente já não está presente; ressuscita-o, agora sem restringi-lo, em outras dimensões espaço-temporais; fora das quatro linhas que delimitam, cerceiam o objeto. A imagem oculta desvelando; liberta à medida que prende. Traz ao presente o que já não é presente: conta o passado, o processo e o objeto ausente, entretanto, presente na imagem.
 
A imagem remete-nos para um espectro do mais além e mais aquém do tempo e das condições históricas e de produção (a imagem diz muito e pouco, diz mais, talvez, no seu não-dizer, naquilo que não disse, no que ficou à margem, fora do enquadramento, digamos). E isso no presente. O “estar lá” – expressão usada por Roland Barthes – é característica comum e distintiva do fotógrafo e do objeto fotografado, objeto visto. E é esse “estar lá” materializado na fotografia que permite trazer o objeto para o nosso presente: trazer para o presente aquela presença já não mais presente. 
 
Como é possível a imagem sair de si, evolutivamente, é igualmente possível entranhar-se em si mesma, involutivamente (movimentando-se, de modo circular e egóico; ir da obra ao autor e do autor à obra). Os iconoclastas acreditam que a imagem/objeto, quando e se acaso sai de seu próprio ser objeto, faz referência ao “criador” – humano. Logo, ou a imagem se apresenta como “oca” ou faz referência a seu próprio produtor. Ad infinitum. Não lhes parece que a imagem possa remeter ao Outro, ir além de si ou de seu artífice; que possa, com sua presença, remeter ao divino ou a vida divina; que, pela representação, a coragem se faça concretamente presente, ainda que já ausente. 
 
O que parece-me é que a imagem, sempre, no mínimo, sugere um outro âmbito, não dicotômico. Mesmo na fotografia publicitária há uma sugestão que nos conduz para além do produto-produtor.

 

Fotografia: Michael

 

 

 


 

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