O psicanalista cobra o seu silêncio pelo taxímetro – sou um menino educado (e, como verão, analisado) e optei por não dizer o “meu” psicanalista. Portanto, o relato do sonho será brevíssimo. E brevíssimo não por motivo de uma relação “precoce”, embora assim busque costurar o meu
psicanalista; não é questão de cama, mas de grana. Entre mim e o psicanalista é isto que há: eu entro com o sonho (mais dinheiro e tempo), ele, com o divã.
Que onda, que onda, doutor, esse sonho. A língua de Alcina roça a língua de Matogrosso. E existe todo um mistério; os olhos de Alcina encontram os olhos de Matogrosso: olhos nos olhos. Compreende, doutor? É coisa profunda. Pois é, tive esse sonho… ora, não posso ter um sonho como quem tem uma calça, ou posso? Melhor dizer sonhei um sonho ou fui um sonho ou sou um sonho? Todo sonhador é um voyeur, é o que o senhor fala sem falar; sim, senhor. Quem nada diz, ainda tem tudo a dizer e não se compromete. Acaso é um mal ser voyuer? O doutor também não é um voyeur agorinha mesmo?
Matogrosso sempre pouco coberto, e Alcina como que a vestir, além do que lhe é próprio, a falta das vestes de Matogrosso. Ambos vestidos e desvestidos para gozar o carnaval. Não há, porém, máscaras, estão despidos do interesse de ser outros que não eles próprios. Chove colorido e qualquer coisa harmônica acontece, corpo contra corpo; melhor, corpo com corpo: Matogrosso e Alcina, Alcina e Matogrosso espalham prazer e dor. É possível, doutor, prazer e dor?
O senhor nada diz e compreendo, pois pago pelo seu silêncio clínico. Talvez, aos olhos do doutor, esteja eu adornando, somente, o principal: o pau e a buceta. Há uma vizinha minha que prefere chamar o próprio sexo de priquito, o que o senhor doutor acha? Dizia ela ao marido um dia desses:”sou jovem e vocễ, velho. Então, o negócio de dar ou não dar o priquito só diz respeito a mim”. Mas veja como o silêncio do senhor atrapalha, interrompe. Voltemos ao que o senhor deseja: a saber, ao pau e a buceta, que estão na boca do povo, e que é o lugar em que devem estar, segundo o senhor doutor. Pois anuncio, senhor, que o pau e a buceta são a boca e a voz; o pau está na guitarra elétrica de Matogrosso e Alcina, penetrando os ouvidos; a epiderme é toda buceta; a bossa, inclusive.
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