Sobre a mesa jaz este telefone celular, mudo, silêncio criador e sepulcral. Se o celular não existisse, haveria uma coisa a menos no mundo, e o mundo já não seria o mesmo –- talvez menos belo; talvez. Retifico: seria menos belo! Emudeceria a voz dos enamorados longínquos, dos que amam e dos que são amados. Se não existisse, mais pena pesaria sobre os que amam –- que são em menor número, porém mais dignos.
Este telefone jaz sobre a mesa e está mudo. Semelhante a um vestido de noiva amarelecido, nunca vestido e tampouco despido. Faltou à moça um bem-querer, quiçá por muito zelo ou por ausência dele. O vestido não adornará o corpo de uma filha, neta… o vestido vestirá (perdoem-me a redundância) um defunto, por fim. Não se pode dançar valsa sem par.
Jaz sobre a mesa este telefone celular. Não toca, mas deveria conforme o manual do usuário. Com um simples toque, diz o manual, “mantenha contato com amigos, familiares e colegas”. Equivoquei-me de objeto, melhor seria, agora, comprar uma crença: o espiritismo vinha a calhar, imagino.
--- Por cá, os telefones tocam demasiado, insultam os ouvidos --- resoluto exclamou o técnico. Bem o sei; houve tempo em que outro telefone também pulsava e havia postos telefônicos.
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