sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Falo dos vivos

Em 2013, vladimir safatle concedeu entrevista ao programa Provocações, apresentado por abujamra – calo sobre este, pois desejo falar dos vivos e aos vivos. Antes de abrir aspas ao que disse vladimir, que exerce a taxonomia, a atividade de observar e maiormente classificar as espécies, falo de Caetano. Caetano ora ora, ora se diverte e brinca com sons e palavras. Infante Caetano! Caetano encarna a contradição, como reza o romântico. Voz afeminada que penetra, gere, requebra, Caetano, e bole com os corações. Caetano faz caducar as classificações.

Isto mais adiante disse vladimir, dizendo também de outrem que disse; em suma, vladimir diz por dois, que vale mais que um: “o problema da música brasileira é o seguinte… um compositor brasileiro chamado gilberto mendes fez uma descrição muito [atente, leitor, para o advérbio de intensidade] boa que era mais ou menos a seguinte…olha que coisa engraçada a cabeça da elite cultural brasileira. Se você pergunta quais são os cineastas que eles mais gostam, vão nomear Antonioni, Fellini. Se você perguntar dos escritores que mais gostam, eles respondem Virginia Wolf e por aí vai. E músicas?, falam Caetano Veloso e Chico Buarque. Você percebe que há um desnível no processo”.

Somente há desnível se há nível, normatização, padrão a ser buscado e exigido, coisa de administradores… “amplitude de controle”, “taxas percentuais”, o diabo. O que sabe a intelligentsia? bem, um nada de tudo, que é coisa muita. Sabe mais que joão, e joão também sou eu. Que se critique a seleção brasileira a cada quatro anos, ok; que se rebele contra o cinema nacional, suportável; suportável até morder, de vez em quando, de picuinha, a literatura contemporânea… mas a música brasileira, Caetano?, não dá pra engolir calado. Não, senhor.

Mensagem de 1992 para 2013 e útil também para 2021 e posteridade, de Otto Lara Resende: “ficou para trás o tempo em que se podia espetar os artistas como insetos”.
 


 


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