E esperamos demasiado por isto a
que chamam virada do ano com a simultânea arte pirotécnica. Mas há, assim ao
menos me parece, um desencanto. Sim, como em “a cinderela”. A excitação logo
brocha após a queima de fogos. O coito não foi bem logrado; o clímax do longo
filme é previsível: todos continuam vivos, quer vença o bem, quer vença o mal;
todavia, todos continuam simplesmente vivos... e já estamos a esperar o ano
vindouro. Qualquer coisa fantástica acontece entre a imagem constituída
solitariamente no banheiro – grande destruidor dos lares – e o quarto concreto e
partilhado. Queremos o banheiro e somos agraciados com o quarto, o mesmo quarto
– a toalha úmida sobre a cama, o ronco e os gases. Para a pobreza pobre, pois há
quem discurse sobre uma pobreza rica, ainda o sentimento da forca, da bala, e,
mais modernamente, do vidro. Após a queima de fogos, para a riqueza rica: a
bênção.
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