Pensemos, por um instante, em um faminto e em um sedento. Nada haveria de místico que o primeiro, diante da comida, e o segundo, em posse de um cântaro transbordante, se referissem a esses bens como bons. Nada haveria de intelecção que um homem, exposto às intempéries, buscasse abrigo; tal como acontece aos pássaros: com a condição de que o bom abrigo é o que protege das tempestades. Em contraste, da comida podre, se diz, por exemplo, que é um mal; caso o homem não verbalize, o corpo dirá a seu modo.
Arriscado seria dizer que o corpo é consciente e, por conseguinte, possui critérios valorativos para a sua autoconservação. Ou, o que é ainda mais arriscado: que a cabeça não é o local em que habita e se desenvolve o conhecimento, ao menos não exclusivamente. Poderiam falar – e falam – os orientais a nós, ocidentais: “pensem com o abdômen”.
O que esboço aqui é o mundo mais ordinário, fisiológico; portanto, pré-científico e pré-filosófico. E neste mundo é preciso comer, vestir, beber, e nada disso abstratamente. Neste mundo, a comida é bela e boa para quem a come, pois permite que a subjetividade vivente permaneça viva. Neste mundo, é uma atividade secundária analisar o modo como a vida é vivida.
O bem e o mal não poderiam ser um produto da cultura, relativo, artificial, já que o corpo (leia-se carne, como unidade) tem suas exigências. É possível, então, discorrer sobre uma vida decadente – que quer dizer uma vida valorada negativamente, como vida má? Sim e não. Sim, no nível fisiológico; a vida, caso não saciado o nível fisiológico, estará impossibilitada de continuar sendo, de ser. Satisfeito o nível fisiológico, a experiência do homem é impenetrável. Tudo o mais poderá aparecer como discurso do mestre: aquele que absolutiza, que se diviniza, que tem, ele somente, os meios para melhor gozar.
Podemos inferir do parágrafo anterior que há outro nível para além do fisiológico. Nível distinto é o cultural, entenda-se cultura no sentido mais comum, como coisa produzida pelo homem. Aqui, não é irrelevante ao homem ser de um modo ou de outro. Nasce, no âmbito cultural, o projeto de ser, de como estar no mundo. Parece-me necessário reiterar que estamos habitando um nível secundário e, especialmente, nebuloso: espaço das convenções, identidades, projetos, em suma.
Plantear um discurso sobre o bem e o mal na esfera da cultura, de um agir correto, de uma vida sobressaliente, pode e geralmente nos indica uma projeção do sujeito enunciante sobre o universo: uma redução das coisas a si mesmo, ou seja, extrapolação do valor pessoal. Para melhor compreensão do que manifesto, farei uso de um texto de Salazar-Bondy: “[…] que aponta para uma forma que se conquista ou não se pode alcançar, que há uma certa normatividade, um certo modelo, um certo paradigma ao qual cada um de nós busca se aproximar e, por tanto, que há carências quando este paradigma não é alcançado e que há exigência, porém, de buscar esse paradigma [...]”.
Confidencio que, quer lendo Platão quer Nietzsche (que caracteriza sua filosofia como platonismo invertido), questiono a eles espontaneamente, e em silêncio, –”que direito o senhor tem para afirmar que vivo uma vida fraca, inconsciente e imoral? Ou que preciso passar por uma formação? Assim não a experiencio, porém.
Parece-me imperioso perguntar, como fez Ronald Laing, quando a questão se debruça sobre a moral, se a experiência do outro, e não apenas o seu comportamento, pode ser conhecida.
Fisiologicamente, para que a subjetividade vivente permaneça viva – perdoe-me a redundância – o corpo (leia-se carne) tem critérios valorativos próprios: ou a água não é um bem para um corpo quase completamente constituído de água? Outro âmbito, contudo, é o cultural; em que o homem, com a condição de ter sólido o seu fundamento – de ser – pode, só então, construir, produzir, revalorar.
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