O mote para a película do sueco Roy Andersson é um verso do poema “Tropeço entre duas estrelas”, do poeta peruano César Vallejo: amado seja aquele que se senta, diz o verso que faz referência ao Sermão da Montanha, As bem aventuranças; “Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos”, livro de Mateus, capitulo 5.
Lembra-nos Roy, não sem alguma ambiguidade, que o dia sagrado não é outro que o do nada fazer. Suportaríamos o fardo da existência em si, sem produção e consumo, sem bengala na qual se apoiar? Isto calha bem quando as personagens encarnam corpos dormentes, pálidos, débeis, todos mais ou menos mortos, mais ou menos vivos. Corpos exaustos do movimento – contrastando com a câmara estática do diretor –, já que o homem é produto e a vida um mercado. A partir desta perspectiva, não podemos falar de homens, mas de matéria biológica ou de massa governável e amorfa; portanto, sem intercâmbio, uma massa que compartilha espaços, não sentimentos ou responsabilidade moral.
A primeira cena do filme apresenta o diálogo entre Pelle e Lennart, este senhorio de um negócio que Pelle administra. Lennart comunica a Pelle da necessária demissão em massa; docilmente, o funcionário observa que a ação será um desastre na vida dos servidores; o empregador, porém, replica: “o que nós temos com isso?”
O que nós temos com isso?, o que podemos fazer? são perguntas reiteradas no decorrer do filme pelos intérpretes que fitam o espectador – exigindo uma resposta!? –, quebrando a chamada quarta parede. Ora, indagações justificadas em uma sociedade amoral, em que não existem obrigações e deveres recíprocos. Diria Bauman: aqui, o outro é um objeto de prazer, não de responsabilidade.
Lennart e Kalle – que incendeia o próprio negócio para reclamar o dinheiro do seguro – sempre se referem a um tempo ou lugar, que não o presente, para justificar ações irresponsáveis. Entretanto, não é algo já constituído, concreto, é, mais bem, um projeto, um alhures com mais gozo, mais riquezas: a consumação está sempre no futuro. E para este futuro todos caminham como andarilhos, todos na mesma direção, embora solitariamente: para onde estão indo?



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