Há homens que vivem no deserto – seja no deserto do real ou do metafórico. Pode-se, aliás, transitar por ambos. David Locke, por exemplo, prefere gente a paisagens. Assim enuncia a personagem interpretada por Jack Nicholson: um repórter que realiza viagem à África Sahariana a fim de capturar a versão dos “rebeldes” que se sublevaram contra o Estado.
Locke, inglês educado nos Estados Unidos da América, porém, não é traspassado pela guerra civil de um país distante. E julga que os seus telespectadores ocidentais sentirão o mesmo: indiferença. É repórter porque, afinal, é forçoso ser algo. Quem é, pois, David Locke? O repórter! E Antonioni? O diretor de cinema! Por que David Locke é repórter e não qualquer outra coisa? Porque se associa com tais objetos em tais circunstâncias. Uma identidade é criada quando nos relacionamos com as ocupações diárias. Passamos a ser o que elas representam. O homem é um animal de hábitos e desejoso de estabilidade.
O homem, também ele, é signo. “Algo” que está remetido para fora de si mesmo. É em razão de…é visto que tem uma profissão, nome, nacionalidade. Robertson, vizinho de habitação de Locke, afirma que este lida com palavras e imagens, coisas por demais frágeis. Não à toa, quando inquirido por Moisés sobre quem era, Deus sentenciou: Sou o que sou.
O deserto é fértil. Nele nasce e frutifica o monoteísmo. E por qual motivo? – vamos viver/experienciar as perguntas, por favor. Locke vai ao deserto sobretudo para fugir da mulher e filhos. Fugir de si, de suas construções/apegos. Mas falha desgraçadamente. Vestes podem ser despidas; outras, porém, são vestidas.
Numa das cenas mais sensíveis do cinema, Locke está capturando em vídeo o depoimento de um curandeiro muçulmano. Aos questionamentos do repórter, investe o sahariano: “suas perguntas revelam mais sobre você do que minhas respostas sobre mim.” O interpelado, inesperadamente, gira a câmara ao interpelante Locke, suado, estranho, desconcertado.
Torrent: https://filmescult.net/profissao-reporter-1975/

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