sábado, 19 de junho de 2021

O Homem ao Lado, 2009. Direção de Gastón Duprat e Mariano Cohn

 

 


O inferno pode ser um quarto de hotel, sem espelhos ou janelas, sem sono ou sonho – a vida sem interrupção. Assim é o inferno descrito por Sartre na peça “Entre quatro paredes” de 1944. O inferno não é constituído por instrumentos de tortura, como fiam os homens, grossas correntes e fogo – tudo ao revés do imaginário popular: o inferno são os outros; o outro interior (outros que habitam em mim) e/ou o outro exterior (outro que habita comigo, junto a mim).

A pele é o muro. A primeira imagem do filme “O homem ao lado” é a de uma mão, que, em posse de uma marreta golpeia um muro. Os golpes produzem não somente um som rítmico, físico, mas rompem uma fronteira, território demarcado: eu aqui, tu aí; dentro, fora. Uma janela está sendo construída porque Victor precisa de um pouco de luz. A obra, mote do drama/conflito, oferece acesso visual ao pátio da casa de Leonardo, famoso designer de objetos.

De Leonardo sabemos quase tudo; “quase”, porque é na relação com Victor que descobrimos o Leonardo ausente, invisível, o seu devenir. É por meio do outro que sou e reconheço as possibilidades de ser. Descubro-me e desvelo-me junto a outros.

Leonardo é o homem da cidade, aparentemente educado, aparentemente gentil, aparentemente superou a natureza/animalidade; mas, apesar de falar várias línguas e estar conectado à internet, ou seja, ao mundo, não consegue se comunicar com Victor ou Lola, sua filha. O primeiro é irredutível a seus argumentos sobre privacidade, normas, conduta; a segunda, inflexível ao seu afeto.

Victor é bárbaro e ameaçador aos olhos de Leonardo; cria-se, portanto, impossibilidade de comunicação intersubjetiva, entre dois. Já que um tenta assimilar – tornar semelhante a si – o outro, não reconhecendo sua diferença. Leonardo apenas virtualmente permite que o outro como outro pise no seu território.

Filme em Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=LmrwVC_UsS8

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