domingo, 2 de maio de 2021

Cópia Fiel (Cópia Conforme), 2010. Direção de Abbas Kiarostami

 


 
“Um objeto é colocado num museu e muda o modo como é visto pelas pessoas. O principal não é o objeto, mas a sua percepção dele”, isto é dito por James Muller, inglês, perito em herança cultura e que se dirige à Itália para apresentar a primeira edição, em italiano, do seu livro “Cópia Conforme”. A defesa de James é que, na arte, cópia e original são indistinguíveis. Monaliza, de Leonardo da Vinci, é uma cópia de Gioconda. E quem Gioconda mimetiza? Digo sobre seus gestos, vestes e expressões. Quem ousaria inquirir, ad infinitum, do modelo original?

A obra artística é labutada, produzida, mimetizada de um modelo prévio, mas não único, determinada por uma subjetividade vivente; a subjetividade, por sua vez, é determinada por valores (os mais diversos) comunitários. O véu de Maya é o que se interpõe entre o olhar e o que é visto. Digamos que o véu não pode ser suprimido, apenas alterado. 

Abbas Kiarostami, com Cópia Fiel, grava o seu primeiro filme na Europa. E não inocentemente escolhe a Itália, país dos ídolos, ícones, iconodulos. Para os iconodulos, em contraposição aos iconoclastas, a “cópia” conduz ao “original”, realiza a mediação, leva o olhar ao modelo prévio – não o primeiro – mais além do visível.

A personagem da magnífica Jiliette Binoche, Elle, encantada com James, porém em discordância com a tese do autor, convida-o ao seu comércio de arte – com originais e poucas cópias, segundo ela –, localizado no subsolo. James alerta a Elle da periculosidade de viver entre imagens. E aconselha: melhor seria ter e conviver com objetos práticos. Para Elle, o real já é utópico. Já não há lugar para o real. 

Elle conduz o autor inglês por museus da Toscana, ambientes sombrios, sem luz direta do sol, corredores desabitados. Nesse compasso, tenta dissuadir o autor, mas este enuncia a belíssima proposição: “a cópia pode ser preferível ao modelo”, já que o último não possui qualquer valor intrínseco.

O diretor iraniano faz com que as personagens, transeuntes e obras apareçam através de objetos refletivos, quando não são capturados diretamente pela câmara. O olhar, assim, é sempre mediado, difuso.

 

 

 

Estando as duas personagens em uma cafeteria, a proprietária assume que são marido e mulher. E aqui um novo enredo se apresenta. Ambos passam a representar, sem resistência, os rituais do relacionamento: discussões sobre a educação do filho, humores intransigentes, acusações mútuas. Como se, deveras, estivessem casados há quinze anos. O casamento falido de Elle é reproduzido, agora, com James. Essa cópia fiel do casamento é acreditada pelos demais; por este motivo, é confirmada, autenticada e legitimada: é original. "Se ele imita tão bem um louco é porque o é." 

Torrent: https://filmescult.net/copia-fiel-2010/

Nenhum comentário:

Postar um comentário