quarta-feira, 7 de abril de 2021

Partner, 1968. Direção de Bernardo Bertolucci

 

“Vocês também têm um Jacob. É o que gostariam de ser, mas têm medo dele e o evitam... Coragem! Quando saírem daqui, procurem o seu Jacob.”

Há um Jacob retraído, delirante, sonhador – isso principalmente, porque é amante e revolucionário apenas na imaginação. Somente o choro é real, também a palpitação oriunda da imagem idealizada. Este Jacob vive uma situação insustentável. Não pode agir de acordo com o seu desejo e muito menos cessá-lo. É um Jacob escindido.

Este Jacob é vítima das mais variadas humilhações, ou, assim elas são vividas e sentidas por nosso herói – “herói”, como expressa Dostoiévski a respeito do personagem Golyádkin, em O Duplo, novela que inspirou Bertolucci na criação de Partner. Este Jacob não possui sobrenome, amor-próprio, nem cargo elevado, sequer uma promessa. Vive numa câmara escura que cheira a mofo; os objetos estão sobrepostos, deslocados do lugar – se é que há lugar determinado para os objetos.

Entretanto, existe outro Jacob: nefasto. Para quem nenhuma crença é muro demasiado alto para pular; em que o outro não é empecilho mas saciedade. Paradoxalmente, ou não, o duplo precisa “estar” para que Jacob se realize.

Podemos notar em Partner uma gradação na criação do duplo; primeiro, Jacob concebe o seu duplo de forma imagética, fantasiosa, criação subjetiva; em seguida, o duplo ganha corpo, existência objetiva. No decorrer do filme, Jacob e o seu duplo autônomo passam a ser indistinguíveis. Quem é o modelo e quem é a cópia? Pode-se falar, ainda, de original e réplica?, realidade e aparência?

Insatisfação com o “eu”, talvez aí esteja o propulsor do duplo. Na peça “A Alma boa de Set-Suan, de Brecht, contra as atrocidades dos demais, Chen-tê, incapaz de dizer não, assume uma segunda personalidade, a de seu primo Chui-Tá: veraz, impiedoso.

Lembremos de São Paulo em sua epístola aos Romanos: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto.”

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