Que relação pode haver entre o genocídio indígena – quiçá o maior da história humana— e a proposição “Deus está morto”? esta, enunciada no século XIX; aquele, engendrado no século XVI. Uma relação é possível? se, por acaso, respondermos negativamente, um modelo explicativo (um discurso) foi fossilizado, naturalizado.
O que há de comum nos dois acontecimentos?, ambos estão, consensualmente, inscritos no período chamado moderno. Segundo Heidegger, na modernidade o homem se converte em fundamento e medida de todas as coisas. O homem, portanto, se diviniza, tudo está reduzido ao “eu”. Uma egologia?
Quando Dostoiévski faz Ivan Karamázov dizer que “Se Deus não existe, tudo é permissível”, o que Ivan deseja exprimir? Possivelmente, não diz que a lei/impedimento é um fenômeno da tradição judaico-cristã. Diz (ou pode ter querido dizer, respeitando a reserva de significado) que nada resiste para além da minha individualidade, que nada há para além da minha vontade. O que é o outro, então, frente ao meu desejo? O que é o outro quando está liquidado -- do discurso e/ou do pensamento?
O que é Deus? O que é Deus quanto este se manifesta, no meio de uma sarça ardente, e fala a Moisés? O que é Deus quando se faz carne – não corpo, não alma, mas carne: unidade da tradição semita? Este Deus é o Outro absoluto. Não sou eu, é o Outro. É o Outro que clama, que chama, que interpela. Deus é o Outro absoluto e, como todo outro, envolto em mistério. O outro é mistério para mim: o indígena é o meu outro; a mulher é o meu outro; o irmão (Abel) o meu outro. Matar o outro é desejar ser um, único, divinizar-se.
Por qual motivo Maria, mãe de Jesus, é reverenciada? Maria ouviu e confiou no Outro, apesar do seu mistério. Como o outro pode ser ouvido, hoje, estando morto?
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