Aloísio acorda e, com insistência, futuca Anselma.
E aí, senhora respeitada, o que tem a me dizer? Anselma, ainda sonolenta, interpela: “o que te fiz eu?, desculpe-me”. Sequer posso perdoar; todos nós somos culpados, mas o que me distingue de você é que conheço a natureza da sua transgressão...e que crime horrendo: sorrindo com o Bento; poderia, ao menos, poupar-me de odiar o melhor amigo. Com o padeiro, Anselma, o leiteiro, o escrevinhador, o analista, por que logo com o Bento? “Você sonh..nem vi o...Freud”. Quem mente gagueja. E tem mais, não admito, ouviu, não admito Freud na cama. Ele é um pilantra. Não se deve confiar em quem escreve mil páginas quando tudo pode ser dito em alguns segundos. Freud é pilantra, sim, e falsificador... tudo já havia sido esclarecido no Eclesiastes: “As visões dos sonhos são à semelhança das coisas; são como a imagem de um homem diante do seu próprio rosto”.
Anselma chora. Sorrindo, Anselma?, com Bento? Isto é o mínimo, o mínimo; de batom rouge, salto alto e brincos de plástico. Desde quando, Anselma? RESPONDA-ME! Não sorrimos pois, segundo você, não há motivos para sorrir neste país...e salto alto, batom?, não sou puta, você dizia. E agora, Anselma? Você sabe, porém vou remontar a cena todinha todinha...estavam, você e Bento, bebendo vinho com taças; prefere que eu diga: degustando, hein? Com taças? “Ai, Aloísio, que coisa mais brega, vulgar e burguesa beber vinho com taças”, lembra?, certamente não.
Aloísio parte amaldiçoando, caindo e espalhafatoso; Anselma liga para Bento
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