domingo, 24 de janeiro de 2021

Sínteses

 

O sonho é esse bicho difícil de capturar, não que seja necessariamente ágil, potente, feroz. É tal como um rato-toupeira, a descrição foge, falta, não se deixa dominar; ou dominamos e não sabemos dominado...como quem diz saber, quando não sabe que não sabe; ou ao revés: diz não saber quando não sabe que sabe. Dizia Borges que o sonho é o primeiro dos gêneros literários.

Um livro dos sonhos, um fragmento de sonho, assim é composto “Bestiário”, livro que elevou Cortázar ao céu, subida, diga-se, merecida mas – como posso me exprimir? –é o trabalho mais singelo do autor que, porém, atiçou os analistas. O poder dos sonhos! Que desejo eu? Um texto, relato de um sonho, para comprar um pão, oxalá.

Estava eu em um sítio que não me pertencia, pois os meus passos não percorriam ruas, esquinas, avenidas assim: sem o pensamento, este mecanismo irrelevante que em nosso sítio não fazemos uso. Os meus passos requeriam rastro, instruções. Sabe-se, o enredo do sonho não é exigente e muito menos coerente.  Perdi trilha e mapa, mas ressoava a voz que dizia “neste caso, procure os Mamedes”. Mamedes são familiares por parte de mãe.

Detenho-me, apenas por um instante. Muitas são as teorias sobre os sonhos; todas mais ou menos verdadeiras, mais ou menos falsas. Uma manifesta que os sonhos são desejos reprimidos na vigília; outra, que o objeto que atemoriza no sonho é o resultado do sentido que aplico a ele na cotidianidade. E o que dizer do sonho que resolve uma fórmula matemática, conhecida e não solucionada? Ou coisa que o valha? Sim, senhor, isto também vivenciei, em outro momento, e perdi por imprudência. A fórmula estava resolvida e acordei, pensei, calculei, estava acertada, porém voltei a dormir e a perdi para sempre... nada nos pertence e cometi, vejo agora, um pecado.

Continuemos com o anterior

Perdido em disfarce – turista que não deseja ser flagrado –, adentrei na loja de livros e brinquedos, loja com cores quentes mas não permitido entrada franca, de supetão. Precisei bater na porta e aguardar. Brilho, cor, vitrinas. Um casal chamou a minha atenção, comportavam-se como donos, falavam como donos; não havia, contudo, atendimento aos clientes. Da moça posso dizer que era belíssima e, surpreendentemente, que existia outra, sua irmã gêmea mais moça, digo mais moça por causa dos gestos, do sorriso, do cavalheiro que a convidava para sair, dançar, talvez.

O que desejo destacar, e aqui me aproximo do fim, é que em algum momento percebi que pequeninos quartos ocupavam o espaço da loja – ou que pequeninos quartos passaram a ocupar o espaço da loja. Não sei se estou autorizado, homem que sou, de falar de tempo e espaço: categorias pertencentes ao assombro do real ou ao assombro do imaginário? – em que medida este também é real? Zhuang Zhou sonhou ser uma borboleta ou a borboleta que sonhou ser Zhuang Zhou... ou a borboleta Zhuang Zhou...

Retomemos

Nestes quartos, que verifiquei a impossibilidade de abarcar um corpo em descanso, ninguém saia como havia entrado ou simplesmente desaparecia. Com medo, fugi! E para onde? Busquei a casa dos Mamedes.

No casarão antigo e velho encontrei dois primos e, com eles, conforto e lar. Um dos dois primos está morto, digo, morto no real. Ao que está vivo no sonho e na vida, detalhei o que tinha acontecido na loja; disse-me, então: “uma nova droga lá é produzida e usada, chama-se Sínteses”. E nada mais pôde dizer, porque acordei. 

 

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