terça-feira, 24 de novembro de 2020

Carnívoro ou crônica da academia

A moça eu conheço, sim. Treinamos juntos; quero dizer, nos mesmos horários e academia. Sobre a moça nada sei (isto é preciso clarear, nada mais sei). Sou algo como pinto, rato, frango... sequer tenho bico...isto é importante, vamos evitar, de início, male entendidos...sim, e a violência, também a delegacia de polícia. O delegado, da última vez, disse que não mais queria ver a “minha fuça”; argumentei contra, afinal sou exigente: “ e se alguém me agredir?”. Ser cortês é para poucos.

Como havia dito, a moça é conhecida, mas não o rapaz, o namorado; foi a primeira vez que o vi. Perguntam, talvez, como soube eu que o moço é seu namorado? Veja, aqui não há fuxico!, é teoria, sim, senhor, estou teorizando, como nas academias.

As academias têm um ritual, uma dança. Coisa darwiniana; quem adentra precisa participar. Ouve-se o coaxo dos sapos e a resposta das fêmeas. Se, por acaso, ouve-se um coaxo, um apenas, e uma única resposta de fêmea, pois aí há namoro, certeza; um diálogo de muita proximidade, com toque na barriga da fêmea... batata! Atentos: tudo isso é público, é de sua natureza se apresentar na esfera pública; na privada, o casal pode se esganar... e é até preferível. Esta peça regozija o casal.

Pois, como se forma o casal? Como os pavões, naturalmente. Quanto maior o macho, quanto menos misterioso, mais alto, mais forte... Agora, agora mesmo, senhores, ouço um grito, bem próximo ao ouvido... chama-me machista, com ferocidade. Respondo que sim, mas sobretudo e essencialmente, um animal; animal dos pequenininhos, estranhos, por enquanto.

Na academia, e isto é provado pelos estudiosos, muito é possível aprender. Hoje, por exemplo, percebi que me alimentar de ovo e batata doce é furada. Assim como o namorado da moça, é preciso comer carne e, se possível, beber o sangue. Ele (o namorado) é leão, rei da selva. Digam-me, por favor, qual a alimentação do leão? Não é, sem dúvida, ovo de galinha surrupiado e capim verde.

 

 

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