sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Madonna, 1993

 

E as loucas bebiam ao som de True Blue para aplacar a dor da perda e, simultaneamente, festejar essa graciosa coincidência: Carla morre, Madonna vive e canta in Brazil.

Maquilagem pesada, cabelos de um louro platinado – e masculinizado –, furtivo; a bicha Memí havia alertado que de tanto ferro e fogo os cabelos iriam cair ou Carla ficaria igualzinha as mulheres do National Geographic, da Tailândia, pescoço de girafa. Também vestia o corpo o excesso de bijuterias da China, isto para não violarem o túmulo. Fato novo esse de furtar defunto, dizem as loucas. Ou seria roubo? “Se o pilantra estiver armado, quem sabe?” “E não é presenciado pelo morto?”

Em vida, Carla não entrou para a história, disciplina que julgava da maior irrelevância. Se ao menos o tempo fosse circular. Intento, aqui, portanto, um necrológico (?). Ao nascer fez o seu juramento: “declaro caluniar, blasfemar, transformar, brincar e dançar. E da maior valia: praguejar, cuspir e amaldiçoar”.

Antes de Carla, Carlos já antecipava brincos, saias, sombra, cera depilatória... o garfo e a colher antes do alimento; enfeites engavetados que aguardam a festa, antes de adorná-la. Shirley?, não; Vanessah, não; tampouco Scarlet ou Hellen. Carla, simplesmente. Banho de comunhão que assegura: sou parte, renasci, tenho propósito. O mesmo com Madonna, Pelé e Moisés.

Madonna, o céu de Madonna. Que haja céu, pensativa Carla, mesmo eu estando no inferno; que haja luxo, estando eu na lama. Assim vivia a sua crença particular.

Um metro e oitenta de altura, parecendo maior nas noites solitárias. Mas com molejo! Sem o trabalho da voz que impacientava. É relevante o que se diz, não o como se diz: uma mona, um mequetrefe, arraso, uma praga, um deboche... o que se diz denuncia.

 

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