quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Notícias Humanas

Empurra, soca, leva e grita Barbeiro ou Chinês. Nunca foi barbeiro, em realidade; mas sim cabeleireiro. Na rua isto de nome pouco importa. Como no xilindró, perde-se, primeiro, o nome. E cabeleireiro enrola na língua dos malandros – e também na de Chinês que, por hábito, substitui os érres por éles: blanco, dlible, “dói o meu blaço”, quase um chinês o Chinês.

Na rua Jaraguá, alguns aspiram pó, outros loló; e todos são viradores. Flanelinhas, proxenetas, rinhadores, invertidos. Notívagos. Apesar de fria, ali a noite é quente: batida de polícia, agarração, intriga e comércio ilegal de corpos e tóxicos. Os moradores averiguam das venezianas, conjecturam no escuro, sorriem, praguejam. Quando não é o deles na reta, tudo é circo, tevê e jogo. Quem tem um barraco não sabe como é não ter para onde voltar. Assim, engasgam-se em impropérios: “são vagabundos, pilantras, preguiçosos”.

Durante o dia, Barbeiro faz bico na padaria. É escorraçado, pilhado. Chega fora do tempo, tem fome. O patrão não perdoa. “Hoje sem pão e café, marrentinho, bêbado, perdido”, diz o patrão, o chefe.  Barbeiro já está acostumado, sempre o vidro, o olhar e desejar, a cor, a fome, desde moleque. Lembra-se de Carla, da estação, do sexo desajeitado, em pé, do filho. O juiz havia advertido que precisava ser cauteloso com o dinheiro, mimá-lo; que Barbeiro estava desencarrilhando por causa da bebida. O dinheiro é borracha, meio, compra o esquecimento, cria memórias, isto para o Chinês.

O Barbeiro não é batedor de carteira; não que não tenha matutado, estudado, aconselhado. Já era ralhado como flanelinha, passante, passeador, pelas autoridades, imagine como furtador!?

-- Doutor, desça da bicicleta! Doutor, onde pretende ir uma hora dessas? Qual o seu nome, endereço, identidade?

... E o doutor mal consegue se aprumar sobre a bicicleta surrada.

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