Quem ousará confessar o pecado ao padre?, confessar a fome, o
ridículo, a vida, o vidro, a bala, o sangue? E ao médico, quem ousará? Quem
ousará contar da dor que dói no estômago, das mãos queimadas, unhas roídas, pés
descalços? Justo ao médico que não é mais homem, pois muro, surdo, médico. Todos
muros, todos profissionais. E denunciar o crime -- policial -- à polícia? Nada deve se comunicar ao ouvido sem justiça.
E agora, o que dizer aos homens – aos poucos homens? E por qual
motivo dizer se o sentido que privilegiam é o da visão? Por exemplo, que é o
choro do órfão que se faz ouvir; que é o estômago roncando que anuncia a fome, que
é o grito, o grito, o grito dos desesperados. Sim, compreendo a fabricação das
teorias, dos discursos e notícias, do jogo, do doutorado. Ao que responder a
interpelação da adúltera será, igualmente, apedrejado, morto, crucificado.
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