segunda-feira, 27 de julho de 2020

Ao ouvido sem justiça



Quem ousará confessar o pecado ao padre?, confessar a fome, o ridículo, a vida, o vidro, a bala, o sangue? E ao médico, quem ousará? Quem ousará contar da dor que dói no estômago, das mãos queimadas, unhas roídas, pés descalços? Justo ao médico que não é mais homem, pois muro, surdo, médico. Todos muros, todos profissionais. E denunciar o crime -- policial -- à polícia? Nada deve se comunicar ao ouvido sem justiça.


E agora, o que dizer aos homens – aos poucos homens? E por qual motivo dizer se o sentido que privilegiam é o da visão? Por exemplo, que é o choro do órfão que se faz ouvir; que é o estômago roncando que anuncia a fome, que é o grito, o grito, o grito dos desesperados. Sim, compreendo a fabricação das teorias, dos discursos e notícias, do jogo, do doutorado. Ao que responder a interpelação da adúltera será, igualmente, apedrejado, morto, crucificado.

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