segunda-feira, 13 de julho de 2020

Conta d’água




Disse-me em alto tom, assim como quem grita ao amigo, que visitou a Londres de Shakespeare – acrescentaria, mas não o fiz: dos anos dourados de Shakespeare – e também a Nova Inglaterra, criadora do mais novo bezerro de ouro: o American Dream.  Ademais, que não apercebeu – que raro por parte dela! – a minha sombra no muro de Washington. Talvez, pensei, e só pensei, porque estava eu preocupado com o acúmulo dos papéis d’água. Como lavar as mãos de graxa, unhas de pó?, o rosto em suor e oleoso? 

Que se lembrou de mim – muito generosa, sem dúvida – quando defronte à Casa Rosada... das estórias que eu contava de Borges, Cortázar, Arlt e, especialmente, do túmulo de Sábato que eu havia visitado. Sim, em mim há um poço profundo de passado nunca vivido, mas sentido; às vezes, lido. E pensava, e somente pensava, se dois papéis eram suficientes para justificar o corte d’água. Do que adianta um botijão de gás cheio se a torneira sequer goteja. Da Argentina embarcou em um ônibus que a levou ao México, pois a passagem de avião custava, segundo ela, “o olho da cara”. 

A conta de luz não atordoa, quase não utilizo energia elétrica. Não será o bastante cozinhar, comer no escuro e dormir numa floresta tropical?! Ai, Drummond, para uma flor brotar do asfalto é fácil, se imaginarmos a quantidade d’água debaixo do solo e raízes sensitivas. Difícil é pro João. 

Vivenciou na pele a experiência traumática do México no Museu Nacional. “Você advertiu sobre o monstro Cortés, mas não da traidora Malinche”, enunciou. Sentia-me exaurido, como que desmaiado... minha respiração acompanhava mimeticamente o compasso verborrágico, de maratonista, da minha amiga. Enquanto ela explodia, eu implodia.  Se, comentei mudo, fiava na traição de Capitu, não compreenderia a experiência de Malinche. 

Trouxe-me, aliás, um presente (que gesto amoroso!): Um livro de Miguel León Portilla. Muitos voltaram a ser reeditados após a sua morte. Abri a carteira e visualizei uma nota de dois reais; em um de seus versos, o valor de cento e cinquenta reais inscrito à mão, tinta azul. Não, não passaria como uma nota de cento e cinquenta, sequer existe. 

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