Que a função básica da racionalidade humana é a comunicação,
isto é coisa datada, pré-histórica; mas igualmente comunica o objeto; este,
mesmo sem olhos, sabe – o danado – olhar com apetite; ainda que sem boca, interpela,
esmola. Bicho de vitrina é o objeto, tal como bicho de gaiola. Ao homem que não falta
imaginação, pode-se chamar de olhos os botões da camisa; de boca, a braguilha
da calça...o objeto constituído como extensão do corpo humano...do punho da
rede, das pernas das cadeiras, da chave de dentes.
Isto é exarcebo da imaginação, já ouço o murmuro. Loucura, em suma. Os que me caluniam, entretanto, temem a fotografia. Quando dispostos sobre a pedra fria, aí sim, uma imagem. O objeto câmera não é distinto dos outros: o suor é a sua materialização. Mas isto é introdução, introdução.
Fui convidado! O par macho, do casal de enamorados, havia prometido o convite de casamento. E eu deveras precisava de um par de sapatos para ir à cerimônia. Diz-se do artefato que é para o corpo humano e nasce de uma ocasião. Isto o sapateiro tagarelou quando fui consultá-lo, e bem dito; mas o fato é que, quando me furtava do olhar de uma peça do par, caia em desatino com o olhar da segunda. O coração do bom homem, do santo, suporta a aparição da bela fêmea, mas não da irmã de igual formosura. Se era imperioso comprar o par de sapatos, assim o fiz: porque um homem prevenido vale por dois.
Hoje, o par de sapatos está empoeirado; perece, o coitado; e com teias de aranha na bunda. Digo para mim mesmo com a intenção de confortar – a mim ou ao par? –, antes as aranhas que as moscas! Nasceu, cresceu, e agora deteriora. É a moça que outrora foi pretendida e esquecida. Virgem, pois.
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