Depus a máscara e me vi defronte
ao espelho. Ah!, os espelhos que multiplicam os homens – os vis, os maus, os
empobrecidos. Do meu olhar, do olhar que traspassa a epiderme, que desvela o
crime – de saber-se criminoso, todos criminosos. Que sabe da arcada dentária em colapso, por
força de tragos e veneno; advinha a prótese, o anão, o caolho, o disforme.
Choro por minha eternidade. Os cabelos brancos que correm em aviso...o que
comunicam?, o choro do homem que embaça as lentes vencidas. E isto disse o
optometrista que, certamente, chora sua baixa colocação ante outra superfície
reflexiva.
Olhos que escrutinam e queimam, mas não os pelos que brotam sem fruto dos orifícios humanos, sem apelo estético; que testemunham o cravo, a espinha. O olho que cobiça, que determina e, por este motivo, nega tudo o que há para além deste que olha, é. É audaz e interpela: o que deseja? De uma casa saudável pode-se dizer que não há espelhos: chamam raios – naturais e metafóricos.
Pobre do homem que cobiça a filha do rei (todos são reis); e todas elas, princesas. Assim as descrevem os poetas: sua saliva, mel; seu rosto, plenilúnio; os seios, amanteigados. Do pobre homem, o que dizer?, amanhã cortam a sua água. Tornei, então, a pô-la. A máscara.
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