sábado, 15 de fevereiro de 2020

Éros e a mosca


"Há três anos que fazemos a guerra às moscas.
-- Então como se explica que ainda haja tantas moscas em Nápoles?
-- Que é que o senhor quer, cavalheiro: as moscas venceram!"
Kaputt, de Curzio Malaparte



Éros e a mosca


A qual território o amor visa chegar?, questão datada, certamente. Digo-lhe não como quem pensa sobre, não como quem crê, mas como quem sabe. O amor sai de si em busca do mesmo -- e somente neste caso. O amor de Narciso, portanto, é o mais reto, pleno. Não há caminho a ser traçado, nem rota, pois já está "em si". Sem mediação! Platão, o mesquinho, o encobridor, diz o mesmo: eu, que sou mestre, desperto o mestre que habita em ti por amor. E diz mais, pois Platão muito diz por amor a si: a procriação é a busca da descendência do eu, do mesmo, do homem. 

Hoje, isto dito por Platão é ultrapassado, ultrajante, coisa mediada. Veja Pigmaleão: por um amor que não permite sair de si, cria Galatéia. Cria e ama Galatéia, produção sua. Tolo Pigmaleão! Podendo esculpir coisa viva, mulher quente... opta por esculpir o morto. E não descender e multiplicar o eu. 

Digo, pois: busque a própria imagem e semelhança! Tudo o que está em mim é prazer, beleza, potencialidade; noutro, imundície e desprazer. Pergunta-me, então, como deve proceder? Respondo: como as moscas!, existe melhor exemplo? Elas destroem todo o outro, tudo que "é" sem ser mosca. E são rápidas em produzir o mesmo; uma mosca, ao final de um único dia, já possui sessenta e seis cópias de si. 

Há quem resista contra uma única mosca?, embrenha-se ela em todos os orifícios, na epiderme, no pensar e agir de todo homem; ademais, realiza sua proeza à luz do dia, face a face com o homem.  Tenta tu ser mosca; tento eu, por estas bandas, ser mosca também. Se realizo o que intento, mato-te.

Saiba, porém, que Platão foi mosca. Somos nós moscas de Platão? 


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário