"Há três anos que fazemos a guerra às moscas.
-- Então como se explica
que ainda haja tantas moscas em Nápoles?
-- Que é que o senhor
quer, cavalheiro: as moscas venceram!"
Kaputt, de Curzio
Malaparte
Éros e a mosca
A qual território o amor visa chegar?, questão
datada, certamente. Digo-lhe não como quem pensa sobre, não como quem crê, mas
como quem sabe. O amor sai de si em busca do mesmo -- e somente neste caso. O
amor de Narciso, portanto, é o mais reto, pleno. Não há caminho a ser traçado,
nem rota, pois já está "em si". Sem mediação! Platão, o mesquinho, o
encobridor, diz o mesmo: eu, que sou mestre, desperto o mestre que habita em ti
por amor. E diz mais, pois Platão muito diz por amor a si: a procriação é a
busca da descendência do eu, do mesmo, do homem.
Hoje, isto dito por Platão é ultrapassado, ultrajante, coisa mediada. Veja Pigmaleão: por um amor que não permite sair de si, cria Galatéia. Cria e ama Galatéia, produção sua. Tolo Pigmaleão! Podendo esculpir coisa viva, mulher quente... opta por esculpir o morto. E não descender e multiplicar o eu.
Digo, pois: busque a própria imagem e semelhança! Tudo o que está em mim é prazer, beleza, potencialidade; noutro, imundície e desprazer. Pergunta-me, então, como deve proceder? Respondo: como as moscas!, existe melhor exemplo? Elas destroem todo o outro, tudo que "é" sem ser mosca. E são rápidas em produzir o mesmo; uma mosca, ao final de um único dia, já possui sessenta e seis cópias de si.
Há quem resista contra uma única mosca?, embrenha-se ela em todos os orifícios, na epiderme, no pensar e agir de todo homem; ademais, realiza sua proeza à luz do dia, face a face com o homem. Tenta tu ser mosca; tento eu, por estas bandas, ser mosca também. Se realizo o que intento, mato-te.
Saiba, porém, que Platão foi mosca. Somos nós moscas de Platão?
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