segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Sobre a moça



Dessa moça sei quase tudo, ou melhor, conheço da sua face visível, da que ela própria ilumina e reelabora. Estou decerto contente em vislumbrar a lua que, a partir do que vejo, parece uma unidade perfeita, embora reconheça que há, nessa ilusória unidade, o lado obscuro – que desconheço! Mas não realizado estou (e desanimo) – e Deus sabe o motivo – de me enamorar exclusivamente pela persona, como diria Jung, dessa moça. 

Diz minha mãe, de uma sutileza profunda, que devo contentar-me; pois sou da medida do que consigo abarcar e compreender. Respondo-lhe em pensamento, agora, que desejo ser outro e maior – pois, não posso? Não somos nós modelados e modeláveis?, barro a ser esculpido, pois. Daí o defeito de minha mãe, que passa tardes a ler Álvaro de Campos. Contenta-se, diz ela sobre a moça, com o riso frouxo, a maquilagem pesada e o terno beijo. O que há com essas senhoras que se contentam com tudo?

Adivinho que essa moça – com quem desejo casar-me – se assemelha com as rodovias, destas que não mais passam pelas intimidades dos municípios. Move-me, a moça, pelas bordas, extremidades, faz-me  sempre um estrangeiro. Leio em seu rosto as boas-vindas, mas não posso adentrar. 

Os amigos proclamam que estou louco e penso em traição ou coisa que o valha. Aliás, me tomam por um ordinário, vadio, energúmeno? Não, definitivamente! Estes amigos, nos relacionamentos requentados em que vivem, contentam-se com a gargalhada desmotivada, a pose, o ensaio, a bebedeira, o jantar, a pintura ... Desejo saber, isso sim, sobre os sonhos feitos e os desfeitos; sobre o sonhar; do grito contido, do gesto reprimido, da fissura que corrói a alma sem testemunha; do objeto perdido que estimava, tudo isso desejo saber, moça. 

Disse mais acima que a moça aparenta com a rodovia. Não pense ela que sou eu um carro. Não gozo com as fachadas das casas. Anseio o quintal, as roupas dependuras, o conchavo da cozinha.  Sou, então, por assimilação, um trem. 

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