Dessa moça sei quase tudo, ou melhor, conheço da sua face
visível, da que ela própria ilumina e reelabora. Estou decerto contente em
vislumbrar a lua que, a partir do que vejo, parece uma unidade perfeita, embora
reconheça que há, nessa ilusória unidade, o lado obscuro – que desconheço! Mas
não realizado estou (e desanimo) – e Deus sabe o motivo – de me enamorar
exclusivamente pela persona, como diria Jung, dessa moça.
Diz minha mãe, de uma sutileza profunda, que devo
contentar-me; pois sou da medida do que consigo abarcar e compreender.
Respondo-lhe em pensamento, agora, que desejo ser outro e maior – pois, não
posso? Não somos nós modelados e modeláveis?, barro a ser esculpido, pois. Daí
o defeito de minha mãe, que passa tardes a ler Álvaro de Campos. Contenta-se,
diz ela sobre a moça, com o riso frouxo, a maquilagem pesada e o terno beijo. O
que há com essas senhoras que se contentam com tudo?
Adivinho que essa moça – com quem desejo casar-me – se assemelha com as rodovias, destas que não mais passam pelas intimidades dos municípios. Move-me, a moça, pelas bordas, extremidades, faz-me sempre um estrangeiro. Leio em seu rosto as boas-vindas, mas não posso adentrar.
Os amigos proclamam que estou louco e penso em traição ou
coisa que o valha. Aliás, me tomam por um ordinário, vadio, energúmeno? Não, definitivamente!
Estes amigos, nos relacionamentos requentados em que vivem, contentam-se com a gargalhada
desmotivada, a pose, o ensaio, a bebedeira, o jantar, a pintura ... Desejo
saber, isso sim, sobre os sonhos feitos e os desfeitos; sobre o sonhar; do grito
contido, do gesto reprimido, da fissura que corrói a alma sem testemunha; do
objeto perdido que estimava, tudo isso desejo saber, moça.
Disse mais acima que a moça aparenta com a rodovia. Não pense
ela que sou eu um carro. Não gozo com as fachadas das casas. Anseio o
quintal, as roupas dependuras, o conchavo da cozinha. Sou, então, por assimilação, um trem.
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