sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Sobre noites, formigas e elefantes




Tropeço nas próprias pernas, olhos fixos no chão, caminhando sempre pelas beiradas; certamente, também, corcunda. Assim me imagino, assim creio, assim, infelizmente, sou.  Formiga que por acidente se extraviou, perdeu o rumo o prumo e morrerá. Sem bando, direção ou feromônio. Só. E nesse meditar inconsequente já pressinto o odor: pés e mãos em dissolução. Gotas que, como quando no beiral da janela se precipitam após duradoura resistência. Um corpo torneira e com vontade de urinar. Nesse meio tempo alguém se aproxima e estende a mão, não tardo em retribuir o gesto embora saiba das consequências. As mãos que dissimuladamente se entranham nos bolsos da calça. O sujeito enojado seca disfarçadamente no tecido interior. Eu sei e ele sabe que o suor transmite hepatite. Não é um argumento válido, me questiono – para justifica-lo –, pois o sujeito beija quem chama de namorada e a quem chama de apenas amiga. Beija a boca que é infecta. Olho ao redor enquanto ele fala. Todos, ou melhor, ele e os outros, todos elefantes: gigantes, inteligentes. Eu, formiga. Sem bando. Acendo um cigarro, disfarce, quero sugar do palito aceso toda a fumaça do mundo e, posteriormente, expelir. Sumir, me esconder. Não tenho o que dizer e mesmo que tivesse, calaria – o contraste é infernal, não é possível. Livro-me e sigo até o banheiro. Busco o mais afastado, em vão; ainda assim, habitado. Olho-me no espelho quando não estão, eles próprios, se olhando. Esquadrinho-me; sou pequeno. Como eu seria se assim não fosse? A resposta é imediata, direta, consciente: melhor! Professor, talvez; doutor – conceito vasto e aparentemente elegante. Urino pelas beiradas internas do vaso. Ausência, sem som. Não precisam saber que ocupo um lugar no espaço, questão de respeito, então, logicamente, não os incomodo com o som da descarga. O som fere, é brusco, ruidoso: é elefante.

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