Tropeço nas próprias pernas, olhos fixos no chão, caminhando
sempre pelas beiradas; certamente, também, corcunda. Assim me imagino, assim
creio, assim, infelizmente, sou. Formiga
que por acidente se extraviou, perdeu o rumo o prumo e morrerá. Sem bando,
direção ou feromônio. Só. E nesse meditar inconsequente já pressinto o odor:
pés e mãos em dissolução. Gotas que, como quando no beiral da janela se precipitam
após duradoura resistência. Um corpo torneira e com vontade de urinar. Nesse
meio tempo alguém se aproxima e estende a mão, não tardo em retribuir o gesto
embora saiba das consequências. As mãos que dissimuladamente se entranham nos
bolsos da calça. O sujeito enojado seca disfarçadamente no tecido interior. Eu
sei e ele sabe que o suor transmite hepatite. Não é um argumento válido, me
questiono – para justifica-lo –, pois o sujeito beija quem chama de namorada e
a quem chama de apenas amiga. Beija a boca que é infecta. Olho ao redor enquanto
ele fala. Todos, ou melhor, ele e os outros, todos elefantes: gigantes,
inteligentes. Eu, formiga. Sem bando. Acendo um cigarro, disfarce, quero sugar
do palito aceso toda a fumaça do mundo e, posteriormente, expelir. Sumir, me
esconder. Não tenho o que dizer e mesmo que tivesse, calaria – o contraste é
infernal, não é possível. Livro-me e sigo até o banheiro. Busco o mais afastado, em vão;
ainda assim, habitado. Olho-me no espelho quando não estão, eles próprios, se
olhando. Esquadrinho-me; sou pequeno. Como eu seria se assim não fosse? A
resposta é imediata, direta, consciente: melhor! Professor, talvez; doutor – conceito
vasto e aparentemente elegante. Urino pelas beiradas internas do vaso.
Ausência, sem som. Não precisam saber que ocupo um lugar no espaço, questão de
respeito, então, logicamente, não os incomodo com o som da descarga. O som
fere, é brusco, ruidoso: é elefante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário